Uma infância atípica.
Não tenho outra palavra pra descrever a minha. Também a adolescência. Talvez,
toda a minha vida. A coisa já era esquisita desde os meus velhos. Meu pai era
sapateiro. Não tinha muito dinheiro, mas nunca nos faltou o de comer. O
coroa tinha uma história muito louca. Não sei contar detalhes, porque o velho
nunca falava sobre isso e muita coisa foi dita a mim pela minha mãe ou por alguns
caras que moravam na vizinhança.
Sei que ele
veio para o Brasil em 41. O bicho tava pegando na Europa e ele veio fugido da
guerra. Seu nome verdadeiro era Klaus Von Dort. Era alemão. Veio parar nos
trópicos como clandestino, fugido de alguma coisa que ele aprontou em Berlim.
Saiu de lá procurado. Mas ele não era Judeu. Diziam por lá que ele era
comunista, acho. Burros. Aqui, mudou seu nome para Cláudio Figueira. Meu finado pai. Pouca gente conseguia beber
cerveja como ele. Admito que até eu ficaria em segundo lugar.
Ele chegou à
Porto Alegre no fim de 1941, sem um centavo no bolso e sem conhecer ninguém.
Sabia falar português muito bem, mas com sotaque de Portugal – onde morou uns
tempos na juventude, trabalhando na construção. Arranjou aqui uns bicos e um
barraco nos arredores da cidade, fingia ser de cabo verde ou coisa assim (pra
evitar problemas com a polícia) já que os germânicos não eram muito bem vistos
nesta época. Principalmente com fama de comunista – esses eram caçados por todo
mundo, menos os russos. Ou até eles... Esses bolcheviques eram uns safados... Bom,
isso não interessa. Ele conheceu minha mãe num puteiro em 42. Mas ela não era
puta. Por pouco. Seu nome era Cristina.
O caso é que
ela tinha 16 e ele tinha 30. Ela tinha se enrabichado por um cara casado lá do
Paraná. E o pai dela descobriu. O cara casado caiu fora da cidade na mesma
hora. Meu pai estava saindo da zona na hora em que o pai dela, meu avô, a
arrastava pelos cabelos para dentro do bordel.
“Tu és uma
rapariga! Uma vadia! O teu lugar é a zona!”
“Ela é tua
filha?”
“Filha! Eu não
tenho mais filha. Ela é uma mundana!”
“E vai virar
puta mesmo?”
“Tu és surdo,
portuga? Ela é puta!”
“Então deixa
ela comigo.”
Meu avô olhou
bem pro cara. Minha mãe se debatia e chorava.
“Tu vais fazer
o que com ela?”
“Pois, o que se
faz com uma rapariga?”
Minha mãe
chorava desesperada.
“Tudo bem. Fica
então com esta cadela!”
Ele a jogou
para cima do meu pai com violência. Este a agarrou bem forte e imobilizou-a.
Meu avô foi embora. Em seguida ela cansou de se debater em vão e desistiu de se
desvencilhar.
“Você pode me
estuprar, se quiser. Mas quando você dormir eu te mato!”
“Cala-te. Teu
pai já foi?”
“Já...” – E
começou a chorar de novo.
“Então tu podes
ir embora, se quiseres.” – Ele a soltou.
“Tu não queres
se deitar comigo?”
“Não preciso
tomar-te à força. Tenho mulheres quando quero.”
“Obrigada. Acho
que tu me salvaste.”
“Tens onde
dormir?”
“Não...”
“Não tenho
muitas posses. Mas tu podes ficar esta noite em minha casa, se quiseres.”
Eles viveram no
barraco do velho em Porto Alegre por seis meses, depois se mudaram para Canoas
e ele se estabeleceu como sapateiro. Bom, um ano depois disso eu nasci. No
outono de 1943 fui registrado João Figueira. Filho de uma gaúcha meio índia que
foi expulsa de casa e de um alemão terrorista exilado que fingia ser português.
Dizem que meu pai tomou um porre que durou uma semana.
Minha lembrança
mais antiga é de 45. Todo mundo estava comemorando o fim da guerra. Eu estava
sentado no chão e vi meu pai xingando em alemão e bebendo cerveja, muito
contente.
Quando eu tinha
uns 5 anos, minha vida virou de cabeça pra baixo. Eu estava armando uma
armadilha pra pegar passarinho, no quintal. Apareceram uns soldados e pegaram o
velho à força. Ele derrubou uns dois deles, mas acabou sendo dominado.
Espancaram o coroa na minha frente. Neste dia vi meu pai pela última vez, sendo
arrastado com o rosto coberto de sangue pra dentro de um carro.
Minha mãe dizia
que ele tinha sido dedurado como comunista, porque um vizinho o viu com um
livro do Kropotkin. Burro. Kropotkin era anarquista.
Depois que
levaram o coroa, minha mãe e eu fomos embora do Rio Grande do Sul. Soube tempos
atrás que o meu velho deixou outros filhos na capital gaúcha. Ele era
mulherengo feito o cão. Ouvi dizer que tenho – ou tinha – irmãos por lá, mas
nunca conheci nenhum.
Fui parar na
capital da república. Rio de Janeiro. Minha mãe trabalhava feito condenada e
não adiantava. A gente estava sempre fodido. Morávamos numa casinha toda podre,
num lugar podre. Tinha uma cara que era o malandrão da área. Chamavam de
Agulha, porque furava todo mundo com a navalha. Mandava nos bandidinhos todos
da região e tirava onda com todo mundo. Ele sempre ficava de gracinha pra minha
velha. Dizia barbaridades pra ela na rua e sempre tentava encurralar a mulher.
Era foda, porque a coroa era muito bonita mesmo.
O tempo foi
passando e o Agulha não desistia. Mas minha mãe sempre conseguia se esquivar
desse merda. Em 53, eu frequentava o Colégio Pedro Segundo. A velha me fazia
estudar muito, porque achava que assim a gente ia sair da merda. Vivia dizendo
que eu ia ser doutor. Eu tentava agradar a coroa e me esforçava bastante na
escola.
Um dia, cheguei
da escola e o filho da puta do Agulha estava na minha casa. Resumindo a coisa,
ele tentou estuprar a minha velha e ela reagiu. Eles brigaram e o cretino
passou a navalha nela. Abri a porta e dei de cara com uma poça de sangue no
chão e minha mãe no meio. O safado do Agulha me deu um empurrão e caiu fora.
Não sei o que
me deu. Eu era um moleque de dez anos. Chorei um pouco nesta noite, mas logo
quando o dia seguinte raiou, fui atrás do Agulha. Eu sabia que ele ficava na
gandaia a noite toda e dormia num barraco. Fui esperar o cara lá.
Ele chegou lá
pelas nove da manhã, muito bêbado, e caiu logo sobre o colchão que ficava no
canto do barraco. Apagou.
Eu amarrei o
filho da puta todo, amarrei a boca dele e esperei acordar. Quando ele abriu os
olhos, eu estava sentado bem na frente da sua cara com um martelo. Martelei
cada um dos dedos dele, um por um. Os vinte. Depois disso, martelei os ovos
dele. Martelei bem. Esse nunca mais quis comer ninguém. No fim das contas, sei
que eu quebrei as mãos dele, os pés e destruí os testículos completamente. Ah,
teve uma porrada com o martelo bem no nariz, também. Quase me esqueci.
Deixei aquele
merda lá, amarrado e todo quebrado, e fui embora. Passei em casa e peguei o
livro do Kropotkin que fodeu com o meu pai e fiquei pela rua.
Depois de uns
três anos morando na rua e roubando pra comer, aconteceu algo que mudou minha
vida de novo. Fui furtar um coroa gringo. Ele trabalhava no consulado
britânico. Era irlandês. Passei a mão na carteira dele e saí. Mas tinha uma
correntinha amarrando a porra da carteira e, quando ela esticou, deu um tranco
que arrancou a carteira das minhas mãos. O gringo percebeu e veio atrás de mim.
Ele me pegou e me deu uma surra.
Durante a
surra, deixei cair meu livro. Ele me largou e olhou para o livro velho, todo
ferrado, caído no chão.
“Você lê isso?”
“Leio. Era do
meu pai.”
O gringo olhou
pra mim, olhou pro livro, olhou de volta e disse:
“Meu nome é
Brian. Você deve estar com fome, não?”
Respondi que
sim, limpando o sangue da boca. Ele me levou para sua casa e me serviu uma
janta farta. Comi feito um boi, estava morrendo de fome. Literalmente. Tinha
uns dentes podres, estava raquítico... Depois da comida, o gringo me mostrou a
sua biblioteca. Era enorme e fabulosa. Fiquei vidrado.
Brian acabou
“me adotando”. Não formalmente, mas eu morava em sua casa, ele me alimentava,
me vestia, incentivava meus estudos e tudo mais. Tornou-se meu amigo, como um
pai mesmo. Me colocou pra trabalhar no consulado com ele e me ensinou sobre
muita coisa. Eu devorava os livros dele e conversávamos muito.
Mas aquele pula
brejo dos infernos era um beberrão inveterado. Com ele, comecei a beber. Tinha
14. Bebíamos whisky aos litros. Eu passava mal e pagava comédia, claro. Ele
bebia até esgotar a última gota e não caía. Miserável. Esse era bom de birita!
A mulher dele
era uma mulata muito marrenta que se chamava Odete. Marrenta porque ela tirava
onda com a cara de todo mundo mesmo: era gostosa e sabia disso. Mas era boa
gente, me tratava bem e gostava muito do gringo dela. Só que não conseguia
deixar de pular a cerca de vez em quando.
Um dia – eu
tinha 16, acho – o Brian pegou a Odete na cama com um outro cara. Parece que o
coroa já estava desconfiado e tinha bebido bastante. Deu um tiro no saco do
cara e um outro na própria cabeça.
Brian foi enterrado na Irlanda. Odete herdou
toda a sua grana e virou cafetina. O outro cara nunca mais comeu ninguém.
Eu... bem, vou
resumir.
Eu fiquei
morando com Odete num puteiro de luxo, continuei meus estudos e deixei de ser
virgem. Bebia bem. Mas ainda pagava comédia. Fiquei com a biblioteca de Brian e
lia compulsivamente. Nessa época, comecei a aprender violão com um cara que ia
sempre lá nas termas onde eu morava. Ele tinha sido aluno do Villa Lobos e
tocava violão clássico. Era um sujeito divertido. Esqueci seu nome. Na verdade,
comecei a perceber que um monte de figurões da política nacional frequentava o
lugar e fui fazendo várias amizades. Quando Juscelino fechou as portas do Palácio do Catete, muita gente vinha de Brasília pra visitar a casa.
Quando terminei
a escola, tomei um porre daqueles com as putas lá de casa. Elas eram a minha
família. Foi uma orgia dos diabos. No meio da loucura, resolvi que ia ser
doutor, em memória da minha velha. Entrei pra faculdade de medicina na
universidade federal com 19. No dia do resultado, fizemos outra orgia lá em
casa.
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