Capítulo 8: A Grande Viagem

Tive umas aulas de violão quando era garoto. Nunca fui nenhum virtuoso, mas fazia lá meu sonzinho. Quando larguei a medicina, esse conhecimento me foi muito útil.
Tudo começou num dia comum de trabalho. Eu tinha 26 e era médico em Macapá. Recém formado, concursado e traumatizado pela perda de uma namorada, tinha bebido muito na noite anterior, como de costume, e já tinha atendido uns dez pacientes quando ele entrou. Eu estava cansado e louco pra ir embora. Uma ressaca dos diabos.
“Doutor, é a minha mãe. Ela não quer tomar os remédios.” – Disse.
“Mas, por que?” – Perguntei.
“Ela é índia. Quer que chamem o pajé.”
“Você chamou?”
“Chamei. Ele deve chegar hoje, mas ela está muito mal.”
“Bom, eu estou precisando de um pouco de ar. Vou atender aquele casal que está na sala de espera e depois acompanho você até lá. Você espera ali fora?”
“Claro, doutor.”
É triste ver como as pessoas mais humildes enchem a boca para dizer “doutor”, como se fosse grande bosta. Nesse país, qualquer babaca vira doutor, mesmo se for analfabeto. Basta virar político ou ficar rico. Ou os dois. E isso cria a ilusão de que é alguém importante. Falo pelo meu próprio exemplo: um bêbado. E olha que eu estudei pra caralho! Enfim...
Peguei uma bolsa com alguns instrumentos e fui com o cara. Ele tinha uma carroça com um pangaré na frente. Fomos sacolejando até a maloca onde o sujeito morava. Era bem pra fora da cidade, já pra dentro da selva. Resolvi puxar assunto.
“Como é mesmo o seu nome, rapaz?”
“Uósto, Doutor”.
“Como? Não entendi.”
“Uósto. É porque é inglês. Por isso o senhor não entendeu. Como aquele presidente americano, o Jorge Uósto. Foi meu pai que escolheu. Ele era seringueiro e trabalhava pros americanos.”
“Ah, entendi. Bacana.”
Ele estava orgulhoso. Fiquei em silêncio o resto do caminho. Por um lado foi bom, nunca tinha parado pra escutar a mata daquele jeito. Eram tantos barulhos e de tantos tipos... Fiquei quase hipnotizado com os sons dos animais e das árvores misturados àquele ranger constante da carroça, nem sei quanto tempo levou o trajeto. Foi um tempo de paz que eu não experimentava há tempos. Fui arrancado do transe quando a carroça parou diante de uma cabana do tipo palafita, bem simples, na beira do rio. Lá de fora eu ouvia os gritos da mulher. Lembro de ter pensado comigo mesmo:
“A coisa tá feia. Acho que vai dar merda.”
Quando entrei – juro pra você – parecia uma cena do “Exorcista”. A velha tava com uma cara de diabo, gritando um monte de coisas numa língua incompreensível. Depois fui saber que era a língua nativa da tribo dela. De qualquer forma, fiquei assustado. Foi de gelar a espinha.
“Uósto, conta pra mim como ela ficou assim.”
“Doutor, eu não tenho nem ideia. Cheguei do serviço e ela tava assim. Foi ontem.”
“E seu pai?”
“Morreu, doutor. Tem um ano e meio.”
“Sinto muito. E isso já aconteceu antes?”
“Já, sim, doutor. O doutor Renildo, que era o médico aqui antes do senhor – Deus o tenha –, falou que era espirrofrenia e passou estes remédios.”
“Pode parar de me chamar de doutor. Meu nome é João Carlos. E é “esquizofrenia”, o nome certo da doença. Quando ela toma os remédios, fica bem?”
“Bom, quando levaram ela pra clínica, ela voltou sem falar nada. Aí, tomava o remédio. Agora não quer mais tomar.”
A velha não parou de gritar um único minuto. Boa garganta. Quando ela apagou, a sensação que tive nos ouvidos foi como aquela de quando tiramos um peso muito grande das costas. Nós seguramos a coroa na marra e eu injetei um sedativo. Ela se debatia muito e chegou a me morder algumas vezes, mas acabou cedendo e dormindo.
Uósto estava preparando a carroça pra voltarmos pra cidade, quando o pajé chegou. Não falou nada com a gente, entrou direto. Em seguida saiu e perguntou algo ao Uósto, na língua deles. Conversaram um pouco e eu nunca soube o que disseram. Só sei que o pajé olhou pra minha cara e balançou a cabeça, meio desalentado.
Na hora em que subi na carroça, o pajé entrou. Uósto estava dentro da casa. Fiquei lá sentado esperando até que ouvi um grito. Não imaginava como, mas a velha já tinha despertado. Pulei da carroça e corri para a cabana.
Ao entrar, a velha não estava acordada. O grito era de Uósto. Na verdade, a velha tinha batido as botas. O rapaz estava desconsolado. Chorava muito. O pajé falava com ele em sua língua. De repente, virou pra mim com a maior calma do mundo e disse:
“Ela tinha que ir. Isso não podia mudar. Mas você prendeu ela. Agora, vai ter que consertar.”
Depois disso, falou alguma coisa com o garoto, que já estava parando de chorar. Eu estava atônito. Era a primeira morte que eu encarava na minha curta carreira de médico. Fiquei pensando se a coroa morreu por causa do sossega leão que eu meti nela. Isso acabou comigo.
Uósto me levou de volta pra cidade. Precisei tomar umas biritas pra aguentar a culpa. Me tranquei em casa e enchi a cara até cair. Dormi estatelado no chão da cozinha, com a cara do lado da lata de lixo. Degradante, eu sei.
No dia seguinte, acordei com a visão de dois pés descalços bem sujos, próximos à minha cara.
“Dr. João, o pajé mandou te trazer isso. Disse que se você beber, pode achar o caminho. Mas avisou que se você errar, vai ter que esperar pelos grandes encontros. O primeiro é uma lição. Se você aprender, tem o segundo encontro. Esse te joga de volta pro começo.”
Era Uósto, segurando uma garrafinha. Eu fui me levantando com dificuldade.
“Deixa eu me recompor. Você quer um café, Uósto?”
“Aceito, sim, doutor.”
“Senta aí. Vou lavar a cara.”
Depois que eu voltei do banheiro, ele tinha se mandado. E deixou o café pronto.
A tal da garrafinha ficou em cima da mesa. Misturei numa caneca um pouco de conhaque contrabandeado da Guiana Francesa com café, sentei na cadeira do canto e fiquei olhando pra ela enquanto bebia meu desjejum. Não dei muita importância. Guardei no armário da cozinha e fui pro trabalho. Na semana seguinte, teve uma festa tradicional da área. Não lembro que festa era. Eu vivia bêbado. Algumas pessoas até pediram meu afastamento do trampo porque eu estava sempre fedendo a bebida. Me deram uma licença de uma semana e um belo esporro.
O que lembro é que resolvi ir à tal da festa pra encher a cara e, quem sabe, terminar a noite no puteiro local. Engraçado é que os puteiros sempre me fazem sentir em casa.
Porém, não foi o que aconteceu. Eu estava bebendo um leite de onça numa barraquinha qualquer, quando me virei e dei de cara com o pajé.
“Você tem que soltar ela.”
“Putaquepariu, pajé! Que susto! Parece um fantasma, porra!”
“Você vai ter que voltar e voltar até soltar ela. Vai ficar preso também.”
“Como? Ela morreu, pajé. Que papo é esse?”
“Ela ficou presa. Você prendeu ela.”
“Eu não to entendendo nada. Quer uma birita?”
“Você tem que ver o caminho sozinho. Já te dei o olho. Falta a visão.”
Nessa hora, uma cara veio passando e esbarrou em mim, derramando minha bebida toda. Olhei pro cara que esbarrou e olhei de volta. O diabo do pajé não tava mais lá. Você deve achar que é papo furado, mas eu juro que aconteceu. Que nem uma assombração.
Fiquei uns quinze minutos olhando à volta e tentando achar o pajé. Nada.
Depois disso, estava com as mãos tremendo e comprei logo uma garrafa de cana. Bebi tanto que acordei numa casa que eu não conhecia, com pessoas que eu não conhecia. Eu ardia em febre e fiquei por lá, delirando por uma semana. Não lembrava nada da festa do dia anterior – além do que já contei, claro.
Quando me recuperei, mudei de vida. Larguei a medicina, vendi tudo o que tinha e comprei um violão. Reuni umas ferramentas e uns curativos na mochila e fui embora de Macapá à pé. Não entendo até hoje o que aconteceu. De repente eu percebi que a ditadura militar estava arrasando o país, que eu estava escondido, afogando minhas mágoas no meio da selva e era uma fraude. Virei médico só porque a minha mãe queria que eu fosse doutor. Eu era um bêbado niilista. Nada mais. Quando fui embora, não sei o que me deu. Olhei pro armário da cozinha e vi a garrafinha do pajé. Sei lá porque, carreguei comigo.
Em alguns momentos do trajeto, quase joguei fora pra diminuir o peso. Mas acabei guardando a garrafa por muitos quilômetros, atravessei o Pará inteiro, por terra, em estradas de poeira e sol, ou em canoas, pelos rios. Levei a garrafinha comigo até o Maranhão, sem nunca ter aberto a rolha. Eu estava indo para Brasília. Tinha muitos amigos na política nacional, da minha época de adolescência. Mesmo quando a capital foi transferida para Brasília, alguns caras desses continuavam frequentando as termas da Odete. Uns eram caras maneiros e rodaram quando os militares assumiram. Outros eram uns escrotos. Estes tinham muito poder na época. Pretendia usar isso de alguma forma. Estava com um espírito meio kamikaze e queria fazer uma merda grande. Só não sabia direito qual.
De qualquer forma, cheguei à pé no Maranhão. Estava sem um puto no bolso, faminto, descalço e só levava comigo a roupa do corpo e o violão. E a garrafinha, na capa do violão. Era um lugarejo criado na época do Juscelino, que hoje é município e chama Itinga do Maranhão. Na época, era quase nada. Mas quem tem um violão sempre consegue um prato de comida, uma carona e uma birita. É garantido. E eu tinha aprendido um monte de modinhas durante a travessia do Pará. Do tipo que a peãozada gosta.
Rapidamente, arranjei pouso na casa de uma velha, Dona Sinira. O filho dela, um tal de Tico, gostou das minhas músicas e tomamos um porre juntos. Sempre digo: se tiver uma igrejinha, um campo de futebol e uma birosca, temos uma vila. Eu frequentava as biroscas. Não sou muito chegado a religião ou esportes.
Passei meu aniversário de 27 anos com eles. Claro que não disse que era meu aniversário.
Eram boas pessoas. Muito simples e até um tanto tacanhas. Mas eram muito divertidas e o Tico bebia bem e não pagava comédia. Era um bom companheiro. Quase desisti de ir pra Brasília e fiquei ali com eles. Mas a vida era simples demais. Depois de um ano, comecei a me encher de ficar tocando violão na pracinha e bebendo cachaça. E sempre guardando a garrafinha do pajé, intocada.
Um dia, Tico estava sem cachaça e a achou. Quando vi, disse pra ele não abrir, mas era tarde, já tinha aberto. Ele deu um gole e disse que era bom.
“Prova aí, professor. Você carrega isso e não provou?”
Me chamava de professor porque diziam que eu falava difícil. Nunca souberam que eu era médico. Acabei bebendo aquela porra com Tico. E era gostoso mesmo.
No dia seguinte, resolvi ir embora. Ia tomar café e cair fora bem cedo. Quando acordei, Tico estava de pé, na porta do barraco, parado que nem uma estátua, com os olhos vidrados e babando. Completamente autista. Não consegui fazer com que ele tivesse qualquer reação. Ele continuou lá quando a mãe acordou e ainda estava lá quando fui embora. Pelo que sei, pode estar lá até hoje.
Lembro de ter saído de Itinga do Maranhão do jeito que cheguei. Descalço, só com a roupa do corpo e com o violão. Só não tinha mais a garrafinha do pajé, claro.
Depois de andar por algumas horas, comecei a me sentir enjoado. Parei no canto da estrada e fiquei respirando fundo, olhando pro chão. Vomitei bastante. Fiquei tonto e acabei caindo. Estava ajoelhado no canto da estrada com a cara dentro do capim, quando ouvi uma voz.
“Burro. Você estragou tudo de novo. Agora, tem que esperar pelos grandes encontros. O segundo encontro leva você pro começo. Vai ter que voltar e voltar até consertar.”
A partir daí, a coisa fica bem confusa. Não lembro bem.
Perdi um ano da minha vida. A próxima memória que tenho é de estar em frente à casa de Odete, no Rio de Janeiro, todo maltrapilho, no dia do meu aniversário de 28 anos.
Não sei o que aconteceu, não sei como fui parar lá. Não lembro de nada deste ano. É como se tivesse morrido com 27 e ressuscitado com 28. Claro que eu estou só usando uma figura de linguagem. Eu perdi a memória mesmo. É o que eu acredito, pelo menos.
De qualquer forma, Odete me acolheu e cuidou de mim. Retomei a vida no Rio, morando num bordel de luxo e frequentando a alta roda. Rapidamente arranjei um emprego num prédio do governo, pra fazer um serviço burocrático estúpido, ganhar bem e trabalhar pouco. Fiquei nesse emprego até os 35. Nem sei como aguentei tanto tempo. Deve ser porque eu bebo muito e tenho muitos livros. E investiguei bastante. Passei estes anos de serviço público tentando saber o que aconteceu. Ouvi boatos de que eu estive em Brasília naquele ano. Nada muito concreto. Nada que sirva pra descobrir o que eu fiz durante este ano perdido.
Ao longo de toda a vida, tive alguns lampejos com cenas que não sei explicar. Creio eu que são fragmentos de memória desta época. Às vezes elas aparecem e somem da minha mente num segundo, me deixando sem entender o que era. Às vezes são sonhos esquisitos onde coisas muito surreais me acontecem, em locais que eu nunca fui, com gente que não conheço. De alguns desses, ainda me lembro. 

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