Tive umas aulas de violão quando
era garoto. Nunca fui nenhum virtuoso, mas fazia lá meu sonzinho. Quando
larguei a medicina, esse conhecimento me foi muito útil.
Tudo começou num dia comum de
trabalho. Eu tinha 26 e era médico em Macapá. Recém formado, concursado e
traumatizado pela perda de uma namorada, tinha bebido muito na noite anterior,
como de costume, e já tinha atendido uns dez pacientes quando ele entrou. Eu
estava cansado e louco pra ir embora. Uma ressaca dos diabos.
“Doutor, é a minha mãe. Ela não
quer tomar os remédios.” – Disse.
“Mas, por que?” – Perguntei.
“Ela é índia. Quer que chamem o
pajé.”
“Você chamou?”
“Chamei. Ele deve chegar hoje,
mas ela está muito mal.”
“Bom, eu estou precisando de um
pouco de ar. Vou atender aquele casal que está na sala de espera e depois
acompanho você até lá. Você espera ali fora?”
“Claro, doutor.”
É triste ver como as pessoas mais
humildes enchem a boca para dizer “doutor”, como se fosse grande bosta. Nesse
país, qualquer babaca vira doutor, mesmo se for analfabeto. Basta virar
político ou ficar rico. Ou os dois. E isso cria a ilusão de que é alguém
importante. Falo pelo meu próprio exemplo: um bêbado. E olha que eu estudei pra
caralho! Enfim...
Peguei uma bolsa com alguns
instrumentos e fui com o cara. Ele tinha uma carroça com um pangaré na frente.
Fomos sacolejando até a maloca onde o sujeito morava. Era bem pra fora da
cidade, já pra dentro da selva. Resolvi puxar assunto.
“Como é mesmo o seu nome, rapaz?”
“Uósto, Doutor”.
“Como? Não entendi.”
“Uósto. É porque é inglês. Por
isso o senhor não entendeu. Como aquele presidente americano, o Jorge Uósto.
Foi meu pai que escolheu. Ele era seringueiro e trabalhava pros americanos.”
“Ah, entendi. Bacana.”
Ele estava orgulhoso. Fiquei em
silêncio o resto do caminho. Por um lado foi bom, nunca tinha parado pra
escutar a mata daquele jeito. Eram tantos barulhos e de tantos tipos... Fiquei
quase hipnotizado com os sons dos animais e das árvores misturados àquele
ranger constante da carroça, nem sei quanto tempo levou o trajeto. Foi um tempo
de paz que eu não experimentava há tempos. Fui arrancado do transe quando a
carroça parou diante de uma cabana do tipo palafita, bem simples, na beira do
rio. Lá de fora eu ouvia os gritos da mulher. Lembro de ter pensado comigo
mesmo:
“A coisa tá feia. Acho que vai
dar merda.”
Quando entrei – juro pra você –
parecia uma cena do “Exorcista”. A velha tava com uma cara de diabo, gritando
um monte de coisas numa língua incompreensível. Depois fui saber que era a
língua nativa da tribo dela. De qualquer forma, fiquei assustado. Foi de gelar
a espinha.
“Uósto, conta pra mim como ela
ficou assim.”
“Doutor, eu não tenho nem ideia.
Cheguei do serviço e ela tava assim. Foi ontem.”
“E seu pai?”
“Morreu, doutor. Tem um ano e
meio.”
“Sinto muito. E isso já aconteceu
antes?”
“Já, sim, doutor. O doutor
Renildo, que era o médico aqui antes do senhor – Deus o tenha –, falou que era
espirrofrenia e passou estes remédios.”
“Pode parar de me chamar de
doutor. Meu nome é João Carlos. E é “esquizofrenia”, o nome certo da doença.
Quando ela toma os remédios, fica bem?”
“Bom, quando levaram ela pra
clínica, ela voltou sem falar nada. Aí, tomava o remédio. Agora não quer mais
tomar.”
A velha não parou de gritar um
único minuto. Boa garganta. Quando ela apagou, a sensação que tive nos ouvidos
foi como aquela de quando tiramos um peso muito grande das costas. Nós
seguramos a coroa na marra e eu injetei um sedativo. Ela se debatia muito e
chegou a me morder algumas vezes, mas acabou cedendo e dormindo.
Uósto estava preparando a carroça
pra voltarmos pra cidade, quando o pajé chegou. Não falou nada com a gente,
entrou direto. Em seguida saiu e perguntou algo ao Uósto, na língua deles.
Conversaram um pouco e eu nunca soube o que disseram. Só sei que o pajé olhou
pra minha cara e balançou a cabeça, meio desalentado.
Na hora em que subi na carroça, o
pajé entrou. Uósto estava dentro da casa. Fiquei lá sentado esperando até que
ouvi um grito. Não imaginava como, mas a velha já tinha despertado. Pulei da
carroça e corri para a cabana.
Ao entrar, a velha não estava
acordada. O grito era de Uósto. Na verdade, a velha tinha batido as botas. O
rapaz estava desconsolado. Chorava muito. O pajé falava com ele em sua língua.
De repente, virou pra mim com a maior calma do mundo e disse:
“Ela tinha que ir. Isso não podia
mudar. Mas você prendeu ela. Agora, vai ter que consertar.”
Depois disso, falou alguma coisa
com o garoto, que já estava parando de chorar. Eu estava atônito. Era a
primeira morte que eu encarava na minha curta carreira de médico. Fiquei
pensando se a coroa morreu por causa do sossega leão que eu meti nela. Isso
acabou comigo.
Uósto me levou de volta pra
cidade. Precisei tomar umas biritas pra aguentar a culpa. Me tranquei em casa e
enchi a cara até cair. Dormi estatelado no chão da cozinha, com a cara do lado
da lata de lixo. Degradante, eu sei.
No dia seguinte, acordei com a
visão de dois pés descalços bem sujos, próximos à minha cara.
“Dr. João, o pajé mandou te
trazer isso. Disse que se você beber, pode achar o caminho. Mas avisou que se
você errar, vai ter que esperar pelos grandes encontros. O primeiro é uma
lição. Se você aprender, tem o segundo encontro. Esse te joga de volta pro
começo.”
Era Uósto, segurando uma
garrafinha. Eu fui me levantando com dificuldade.
“Deixa eu me recompor. Você quer
um café, Uósto?”
“Aceito, sim, doutor.”
“Senta aí. Vou lavar a cara.”
Depois que eu voltei do banheiro,
ele tinha se mandado. E deixou o café pronto.
A tal da garrafinha ficou em cima
da mesa. Misturei numa caneca um pouco de conhaque contrabandeado da Guiana
Francesa com café, sentei na cadeira do canto e fiquei olhando pra ela enquanto
bebia meu desjejum. Não dei muita importância. Guardei no armário da cozinha e
fui pro trabalho. Na semana seguinte, teve uma festa tradicional da área. Não
lembro que festa era. Eu vivia bêbado. Algumas pessoas até pediram meu
afastamento do trampo porque eu estava sempre fedendo a bebida. Me deram uma
licença de uma semana e um belo esporro.
O que lembro é que resolvi ir à
tal da festa pra encher a cara e, quem sabe, terminar a noite no puteiro local.
Engraçado é que os puteiros sempre me fazem sentir em casa.
Porém, não foi o que aconteceu.
Eu estava bebendo um leite de onça numa barraquinha qualquer, quando me virei e
dei de cara com o pajé.
“Você tem que soltar ela.”
“Putaquepariu, pajé! Que susto!
Parece um fantasma, porra!”
“Você vai ter que voltar e voltar
até soltar ela. Vai ficar preso também.”
“Como? Ela morreu, pajé. Que papo
é esse?”
“Ela ficou presa. Você prendeu
ela.”
“Eu não to entendendo nada. Quer
uma birita?”
“Você tem que ver o caminho
sozinho. Já te dei o olho. Falta a visão.”
Nessa hora, uma cara veio
passando e esbarrou em mim, derramando minha bebida toda. Olhei pro cara que
esbarrou e olhei de volta. O diabo do pajé não tava mais lá. Você deve achar
que é papo furado, mas eu juro que aconteceu. Que nem uma assombração.
Fiquei uns quinze minutos olhando
à volta e tentando achar o pajé. Nada.
Depois disso, estava com as mãos
tremendo e comprei logo uma garrafa de cana. Bebi tanto que acordei numa casa
que eu não conhecia, com pessoas que eu não conhecia. Eu ardia em febre e
fiquei por lá, delirando por uma semana. Não lembrava nada da festa do dia
anterior – além do que já contei, claro.
Quando me recuperei, mudei de
vida. Larguei a medicina, vendi tudo o que tinha e comprei um violão. Reuni
umas ferramentas e uns curativos na mochila e fui embora de Macapá à pé. Não
entendo até hoje o que aconteceu. De repente eu percebi que a ditadura militar
estava arrasando o país, que eu estava escondido, afogando minhas mágoas no
meio da selva e era uma fraude. Virei médico só porque a minha mãe queria que
eu fosse doutor. Eu era um bêbado niilista. Nada mais. Quando fui embora, não
sei o que me deu. Olhei pro armário da cozinha e vi a garrafinha do pajé. Sei
lá porque, carreguei comigo.
Em alguns momentos do trajeto,
quase joguei fora pra diminuir o peso. Mas acabei guardando a garrafa por
muitos quilômetros, atravessei o Pará inteiro, por terra, em estradas de poeira
e sol, ou em canoas, pelos rios. Levei a garrafinha comigo até o Maranhão, sem
nunca ter aberto a rolha. Eu estava indo para Brasília. Tinha muitos amigos na
política nacional, da minha época de adolescência. Mesmo quando a capital foi
transferida para Brasília, alguns caras desses continuavam frequentando as
termas da Odete. Uns eram caras maneiros e rodaram quando os militares
assumiram. Outros eram uns escrotos. Estes tinham muito poder na época.
Pretendia usar isso de alguma forma. Estava com um espírito meio kamikaze e
queria fazer uma merda grande. Só não sabia direito qual.
De qualquer forma, cheguei à pé
no Maranhão. Estava sem um puto no bolso, faminto, descalço e só levava comigo
a roupa do corpo e o violão. E a garrafinha, na capa do violão. Era um lugarejo
criado na época do Juscelino, que hoje é município e chama Itinga do Maranhão.
Na época, era quase nada. Mas quem tem um violão sempre consegue um prato de
comida, uma carona e uma birita. É garantido. E eu tinha aprendido um monte de
modinhas durante a travessia do Pará. Do tipo que a peãozada gosta.
Rapidamente, arranjei pouso na
casa de uma velha, Dona Sinira. O filho dela, um tal de Tico, gostou das minhas
músicas e tomamos um porre juntos. Sempre digo: se tiver uma igrejinha, um
campo de futebol e uma birosca, temos uma vila. Eu frequentava as biroscas. Não
sou muito chegado a religião ou esportes.
Passei meu aniversário de 27 anos
com eles. Claro que não disse que era meu aniversário.
Eram boas pessoas. Muito simples
e até um tanto tacanhas. Mas eram muito divertidas e o Tico bebia bem e não
pagava comédia. Era um bom companheiro. Quase desisti de ir pra Brasília e
fiquei ali com eles. Mas a vida era simples demais. Depois de um ano, comecei a
me encher de ficar tocando violão na pracinha e bebendo cachaça. E sempre
guardando a garrafinha do pajé, intocada.
Um dia, Tico estava sem cachaça e
a achou. Quando vi, disse pra ele não abrir, mas era tarde, já tinha aberto.
Ele deu um gole e disse que era bom.
“Prova aí, professor. Você
carrega isso e não provou?”
Me chamava de professor porque
diziam que eu falava difícil. Nunca souberam que eu era médico. Acabei bebendo
aquela porra com Tico. E era gostoso mesmo.
No dia seguinte, resolvi ir
embora. Ia tomar café e cair fora bem cedo. Quando acordei, Tico estava de pé,
na porta do barraco, parado que nem uma estátua, com os olhos vidrados e
babando. Completamente autista. Não consegui fazer com que ele tivesse qualquer
reação. Ele continuou lá quando a mãe acordou e ainda estava lá quando fui
embora. Pelo que sei, pode estar lá até hoje.
Lembro de ter saído de Itinga do
Maranhão do jeito que cheguei. Descalço, só com a roupa do corpo e com o
violão. Só não tinha mais a garrafinha do pajé, claro.
Depois de andar por algumas
horas, comecei a me sentir enjoado. Parei no canto da estrada e fiquei
respirando fundo, olhando pro chão. Vomitei bastante. Fiquei tonto e acabei
caindo. Estava ajoelhado no canto da estrada com a cara dentro do capim, quando
ouvi uma voz.
“Burro. Você estragou tudo de
novo. Agora, tem que esperar pelos grandes encontros. O segundo encontro leva
você pro começo. Vai ter que voltar e voltar até consertar.”
A partir daí, a coisa fica bem
confusa. Não lembro bem.
Perdi um ano da minha vida. A
próxima memória que tenho é de estar em frente à casa de Odete, no Rio de
Janeiro, todo maltrapilho, no dia do meu aniversário de 28 anos.
Não sei o que aconteceu, não sei
como fui parar lá. Não lembro de nada deste ano. É como se tivesse morrido com
27 e ressuscitado com 28. Claro que eu estou só usando uma figura de linguagem.
Eu perdi a memória mesmo. É o que eu acredito, pelo menos.
De qualquer forma, Odete me
acolheu e cuidou de mim. Retomei a vida no Rio, morando num bordel de luxo e
frequentando a alta roda. Rapidamente arranjei um emprego num prédio do
governo, pra fazer um serviço burocrático estúpido, ganhar bem e trabalhar
pouco. Fiquei nesse emprego até os 35. Nem sei como aguentei tanto tempo. Deve
ser porque eu bebo muito e tenho muitos livros. E investiguei bastante. Passei estes
anos de serviço público tentando saber o que aconteceu. Ouvi boatos de que eu
estive em Brasília naquele ano. Nada muito concreto. Nada que sirva pra
descobrir o que eu fiz durante este ano perdido.
Ao longo de toda a vida, tive
alguns lampejos com cenas que não sei explicar. Creio eu que são fragmentos de
memória desta época. Às vezes elas aparecem e somem da minha mente num segundo,
me deixando sem entender o que era. Às vezes são sonhos esquisitos onde coisas
muito surreais me acontecem, em locais que eu nunca fui, com gente que não
conheço. De alguns desses, ainda me lembro.
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