Sabe, eu também
fui advogado. Foi nos anos oitenta. Tinha acabado de fazer quarenta, formado,
reformado, deformado, um tanto surtado, parei de beber e resolvi trabalhar num
escritório. Com os contatos que eu tinha da época das termas, foi fácil entrar
no mercado quarentão. Me lembro de um episódio desta época. Estava sem beber
havia quase um ano. Tem vezes que a sorte realmente não colabora. Nesse dia, já
acordei caindo da cama. Literalmente. Tinha dormido em cima do braço, que ficou
todo dormente, e, bem na hora em que eu me virei para sair de cima dele,
descobri que a cama não estava daquele lado. Tomei um baita estabaco, daqueles
que te dão susto. Inclusive, de tanto susto, meu reflexo foi que nem de gato:
bati no chão já pulando. Só que eu tinha um braço dormente no momento, o que
fez com que faltasse apoio. Caí em pé feito felino, simplesmente pra cair ainda
mais feio. Belo início de dia, sim senhor. E era mesmo só o início.
Levantei
resmungando, ainda meio desorientado, e fui dar uma cagada. Depois de fazer o
serviço, descobri que não tinha papel. Tive de entrar no chuveiro, que – é
claro – não estava funcionando, e (considerando que estava em Julho) a água
estava quase congelando. Deu pra perceber? Não era o meu dia. Fui fazer a barba
e o barbeador elétrico estava com um fio desencapado. Você adivinha? Claro,
tomei um choque. Um porradão de 220 volts, assim, sem mais nem menos.
Porra,
normalmente isso já era mais do que suficiente pra me fazer surtar de raiva. O
que me intrigou foi que, nesse dia singular, eu me sentia mais resignado e
passivo do que nunca. Como se nada pudesse me tirar do sério. Então disse pra
mim mesmo: “Bom, hoje nada será capaz de me irritar. Eu vou conseguir fazer o
que o meu terapeuta sempre diz. Superar essas situações sem me deixar consumir
por elas, não entrar em sua sintonia e viver em paz. Sim, isso mesmo. Nada vai
ser capaz de me tirar do meu equilíbrio.” Sei que isso é meio papo de maluco.
Mas você queria o quê? Eu era o tipo do cara de pavio curto! Já tinha tido um
monte de problemas com isso, desde perder amizades até ser preso por destruir o
gabinete de um vereador. Por isso ia sempre ao analista. Nunca soube me conter,
segurar a raiva, a indignação, a revolta. Vejo as coisas erradas e preciso
mudá-las. Enfim, eu não procurava briga, mas nunca deixava de aceitar uma,
entende?
Quando, depois
desse despertar traumático, eu ainda estava lá, estoicamente resignado... Achei
que finalmente tinha me iluminado – ou coisa parecida. Pensei que era aquela louca
meditação tibetana – que custava cem pratas por sessão – finalmente fazendo
efeito. É, isso também foi indicação do meu analista. Mas não vem ao caso.
Onde eu estava?
Sim, sim. Fui tomar um café, mas o gás tinha acabado. Vesti o paletó e descobri
que o Zaratustra – não o do Nietzsche, o meu gato – tinha mijado nele. Saí pro
trabalho com um paletó velho e furado. Justo no dia da audiência com o juiz.
Mas respirei fundo e fui em frente. Andei duas quadras pra tomar um café na
padaria. No caminho, enchi meu peito e enfiei um sorriso grande no rosto (era
assim que o meu analista dizia pra eu fazer: “toda vez que algo der errado,
sorria e se sinta forte que o mundo vai sorrir de volta”). As pessoas não
sorriam pra mim. Estavam me olhando com uma cara esquisita, como se eu fosse um
maluco ou coisa parecida. As mães puxavam as crianças pra longe de mim, as
velhinhas desviavam do caminho, até o gari fez cara de nojo e saiu correndo.
Foi quando
percebi duas coisas, uma desagradável por causa da outra: Tinha saído sem cueca
e a minha calça estava toda descosturada no meio das pernas e atrás, na bunda.
Ou seja, estava andando com tudo de fora e sorrindo pra todo mundo. Pensaram
que eu era tarado. Corri pra casa com vergonha. Coloquei uma cueca e conferi
bem a costura da outra calça. Depois disso, retomei o sorriso e o peito
empinado e fui-me embora sem café mesmo, pois estava atrasado.
Depois teve a
bendita audiência. Eu estava defendendo um cara de muito dinheiro num processo
de divórcio. Era o trabalho que eu queria há tempos: ia ganhar muito se o cara
ficasse satisfeito, inclusive porque ele ia me indicar pros seus amigos ricaços
também. Saca? Podia mudar de vida. Esse ricaço tinha contratado um detetive
particular e descobriu que a sua esposa (vinte e oito anos mais nova) estava
lhe pondo chifres com um monte de garotões pés-rapados com quem ela gastava boa
parte do dinheiro que ele lhe dava. E ela sempre queria mais. Ela queria metade
dos bens do cara e dizia estar grávida. O cara tinha provas de que ela o traiu
e nunca esteve grávida (e nem está agora) porque é estéril. Daí não queria
pagar nada pra ela. Ia ser moleza, esse caso. Se eu não tivesse esquecido minha
maleta em casa quando voltei pra trocar as calças.
Tomei um baita
esporro do juiz. Tá rindo? Isso não foi o pior: ele ainda me deu um sabão por
causa do meu paletó, do meu cabelo desgrenhado e da barba por fazer. Disse que era
um relapso, vagabundo e insinuou que eu sou alcoólatra. Ouvi tudo calado, pedi
mil desculpas das maneiras mais pomposas e floreadas que a faculdade me ensinou
a fazer e adiei a audiência pra semana seguinte. No corredor... Você já deve
ter adivinhado. Não? Ah, sabe o ricaço? Me esculhambou também. Me despediu e
disse que ia fazer todo o possível pra que ninguém que ele conheça viesse, um
dia, a me contratar. Nem pra ser corretor de imóveis na baixada fluminense. Já
ouviu aquela expressão, “sifu”? Pois é. Mifu.
Só me restou ir
comer alguma coisa. Mas, apesar de tudo, eu tinha decidido não me deixar
irritar. Fui numa lanchonete, pedi um sanduba daquele tamanho, uma coca-cola e
sentei na mesa do fundo, bem escondido no canto. Enquanto comia, pensei comigo:
O que meu analista diria? Tentei ligar pra ele. Só que ele tinha viajado pra
curtir as férias na Argentina.
Provavelmente
ele diria algo tipo “Não se deixe abater” e “tem males que vem pra bem, isso
pode ser o que vai te levar a uma melhora enorme, muito maior do que você
imagina. Pode ser que seja a hora de você deixar este emprego por um muito
melhor!” – foi o que fiquei pensando. Resolvi encarar as coisas deste jeito e
abri o sorriso de novo.
Quando acabei
de comer percebi que tinha deixado o dinheiro na outra calça e o cartão do
banco na maleta.
Tentei explicar
pro gerente, mas ele mandou o segurança me chutar pra fora – o que foi feito
com extrema brutalidade. Levantei todo quebrado, depois desse vexame, e resolvi
ir pra casa. Era melhor não ficar mais dando mole pro azar. Ia meditar a tarde
toda pra me sentir melhor.
Quando fui
buscar o carro, ele não estava mais lá. Sem perceber, por causa da pressa,
estacionei na vaga reservada pra viatura da polícia e eles rebocaram o veículo.
Andei por quarenta minutos, passei no escritório e pedi um trocado à minha
secretária, pra poder ir pra casa de ônibus. Lá ela me deu a notícia: o dono da
sala queria vende-la e pediu que a desocupasse em uma semana. Estava bem na
época de renovar o contrato – o que ele, obviamente, não ia fazer.
Tomei um
ônibus. Não deixava o sorriso sair do meu rosto. O trocador era antipático, o
veículo estava lotado e, pra completar, fui espremido entre dois caras que
fediam pra diabo. Ok. Sorriso no rosto, nada ia me abalar. Comecei a assobiar
uma música. Olhava pela janela, enquanto sacolejava dentro do coletivo,
pensando nas palavras do professor de meditação: “Esqueça de tudo, deixe a
mente em branco. Concentre-se somente na sua respiração; ar que entra, ar que
sai, ar que entra, ar que sai...” – nessa hora o ônibus freou abruptamente e eu
fui lançado lá na frente.
Passei uns
cinqüenta minutos em pé na lata de sardinhas, com solavancos e reclamações das
pessoas nos ouvidos. Quando estava bem perto do meu ponto, o pessoal todo
desceu e vagou um lugarzinho pra eu sentar perto da janela. Não ia permanecer
ali por muito tempo, mas um descanso vai sempre bem, pensei. Sorte? Não, nada
disso: eu acabei dormindo. Acordei com o motorista me sacudindo no ponto final
– que era bem longe da minha casa, diga-se.
Pedi a ele para
deixar que eu voltasse no mesmo ônibus, pois tinha perdido o ponto e etc e tal.
Ele respondeu que era norma de empresa: tem que descer e pagar outra passagem.
Mas eu estava sem dinheiro. Ele nem quis saber. Falou (assim mesmo, na cara de
pau): “Vai a pé, então!” Que remédio? Fui a pé. Andei até o início da noite.
Ah, e roubaram meus sapatos, minha calça e meu relógio nos primeiros cem
metros.
Quando cheguei
à porta do meu prédio, o porteiro me falou que o elevador estava quebrado.
Foram treze andares de escada. Ao entrar em casa, estava tudo alagado: um
vazamento no banheiro do vizinho de cima infiltrou pelo teto e inundou minha
sala. Encontrei o Zaratustra – dessa vez era o livro, não o gato – todo
destruído, boiando na poça. Os outros livros também estavam acabados.
Felizmente, discos de vinil são à prova d’água. Infelizmente, a prateleira onde
eles estavam não era. Vários discos caíram e – você já deve esperar – os meus
preferidos quebraram-se em mil pedaços.
Depois de horas
tirando tudo da sala, depois do zelador quebrar o meu teto todo pra consertar o
vazamento, alimentei o gato, comi um arroz com feijão da semana anterior e
resolvi sair pra espairecer. Ia beber uma cerveja e depois dormir. A esta
altura eu já começava a esmorecer minha convicção naquele papo de “sorria e o
mundo sorri de volta.”
Era tarde, numa
segunda feira, e tudo estava fechado, exceto um botequim muito sujo e pequeno,
que havia na rua de trás. Fui lá mesmo.
Ao chegar, o
coroa do balcão me falou que a cerveja tinha acabado. Demorei pra acreditar,
fiquei insistindo muito e me explicando e enchendo o saco do velho. Quando ele
não agüentava mais, falou: “Olha, moço, pode revirar o freezer. Talvez você dê
sorte de achar uma lata perdida embaixo dos refrigerantes, mas para de me
encher!”
Sorte? Já achei
difícil. Mesmo assim, revirei o freezer do coroa, tirei um monte de latas de
refrigerante – o que me gastou um bom tempo. Quase desistindo, achei uma última
lata de cerveja, debaixo de tudo, lá no fundo. Fiquei excitado com meu achado.
Pensei logo que era ali, naquele momento que a minha sorte ia virar. Fiquei
alegre de novo.
Coloquei a lata
– que estava muito gelada, no ponto – em cima do balcão e fui recolocar os
refrigerantes no freezer. Enquanto eu estava abaixado atrás do balcão, um cara
grande entrou e pegou a minha cerveja.
“Ei, amigo, com
licença, esta cerveja é minha. Tive de revirar tudo por ela e é a última. Me
desculpe, mas eu realmente preciso desta cerveja.” – falei educadamente.
“Eu não estou
vendo o seu nome nela.” – ele me respondeu, de uma maneira um tanto ácida. E
continuou: “Se é a última, vai pra outro bar.”
Não tinha outro
bar. Nesse momento foi como se o encanto tivesse terminado. Saca? Como se fosse
meia-noite e a carruagem tivesse virado abóbora? Me bateu uma irritação
imensurável, impossível de conter. Analisando bem, eu realmente precisava parar
de sair por aí quebrando tudo. Era perigoso – basta lembrar que o cara era
grande. Então fechei os olhos e imaginei o meu terapeuta falando: “relaxe e
sorria”. Imaginei o professor de meditação: “ar que entra, ar que sai”.
Respirei fundo. Num momento de rara clareza mental decidi que minha atitude ia
mudar naquele exato instante e para toda a vida dali em diante. Abri os olhos e
olhei pro cara rindo com sarcasmo da minha cara de babaca. Lembrei de novo do
analista e do professor de meditação. Aí, pensei: “que se fodam, esses
cretinos!”
Olhei para o
cara que pegou minha lata, olhei pro coroa atrás do balcão e sorri. Então, com
a maior amabilidade do mundo, falei: “Sabe, amigo, você tem razão. Pode beber
sua cerveja em paz, me desculpe. Mas será que o senhor poderia me ajudar a
colocar os refrigerantes de volta no freezer para eu poder ir embora?” O cara
olhou pra mim. Coçou o queixo e a cabeça. Olhou à volta e me olhou de novo.
“Tá bom,
magrelo. Vou te ajudar pra tu não ficar enchendo o meu saco e estragando a
minha noite com essa sua cara de idiota.” – o cara falou.
Ele deixou a
cerveja – que ainda estava fechada – sobre o balcão e começou a me ajudar.
Quando ele estava abaixado colocando umas latas no freezer, eu, rapidamente,
peguei a cerveja do balcão e sacudi com muita força, o mais rápido que pude,
depois coloquei-a de volta no balcão.
Agradeci ao
safado e me mandei o mais rápido que deu.
Pena não poder
ver a cara dele toda molhada de cerveja.
Tem vezes que a
sorte realmente não colabora. Mas tem vezes em que é preciso apenas ser um
pouco “espírito de porco” pra conseguir sorrir. Quer saber? Foi nesse dia que
eu resolvi deixar de ser advogado. Foi uma carreira curta, eu sei. Mas foi
melhor assim. Mandei o analista e o professor de meditação se masturbarem com
uma vassoura e não encherem mais o meu saco. Tenho vivido muito bem sem eles.
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