Capítulo 6: Uma Historinha do Cotidiano

Sabe, eu também fui advogado. Foi nos anos oitenta. Tinha acabado de fazer quarenta, formado, reformado, deformado, um tanto surtado, parei de beber e resolvi trabalhar num escritório. Com os contatos que eu tinha da época das termas, foi fácil entrar no mercado quarentão. Me lembro de um episódio desta época. Estava sem beber havia quase um ano. Tem vezes que a sorte realmente não colabora. Nesse dia, já acordei caindo da cama. Literalmente. Tinha dormido em cima do braço, que ficou todo dormente, e, bem na hora em que eu me virei para sair de cima dele, descobri que a cama não estava daquele lado. Tomei um baita estabaco, daqueles que te dão susto. Inclusive, de tanto susto, meu reflexo foi que nem de gato: bati no chão já pulando. Só que eu tinha um braço dormente no momento, o que fez com que faltasse apoio. Caí em pé feito felino, simplesmente pra cair ainda mais feio. Belo início de dia, sim senhor. E era mesmo só o início.
Levantei resmungando, ainda meio desorientado, e fui dar uma cagada. Depois de fazer o serviço, descobri que não tinha papel. Tive de entrar no chuveiro, que – é claro – não estava funcionando, e (considerando que estava em Julho) a água estava quase congelando. Deu pra perceber? Não era o meu dia. Fui fazer a barba e o barbeador elétrico estava com um fio desencapado. Você adivinha? Claro, tomei um choque. Um porradão de 220 volts, assim, sem mais nem menos.
Porra, normalmente isso já era mais do que suficiente pra me fazer surtar de raiva. O que me intrigou foi que, nesse dia singular, eu me sentia mais resignado e passivo do que nunca. Como se nada pudesse me tirar do sério. Então disse pra mim mesmo: “Bom, hoje nada será capaz de me irritar. Eu vou conseguir fazer o que o meu terapeuta sempre diz. Superar essas situações sem me deixar consumir por elas, não entrar em sua sintonia e viver em paz. Sim, isso mesmo. Nada vai ser capaz de me tirar do meu equilíbrio.” Sei que isso é meio papo de maluco. Mas você queria o quê? Eu era o tipo do cara de pavio curto! Já tinha tido um monte de problemas com isso, desde perder amizades até ser preso por destruir o gabinete de um vereador. Por isso ia sempre ao analista. Nunca soube me conter, segurar a raiva, a indignação, a revolta. Vejo as coisas erradas e preciso mudá-las. Enfim, eu não procurava briga, mas nunca deixava de aceitar uma, entende?
Quando, depois desse despertar traumático, eu ainda estava lá, estoicamente resignado... Achei que finalmente tinha me iluminado – ou coisa parecida. Pensei que era aquela louca meditação tibetana – que custava cem pratas por sessão – finalmente fazendo efeito. É, isso também foi indicação do meu analista. Mas não vem ao caso.
Onde eu estava? Sim, sim. Fui tomar um café, mas o gás tinha acabado. Vesti o paletó e descobri que o Zaratustra – não o do Nietzsche, o meu gato – tinha mijado nele. Saí pro trabalho com um paletó velho e furado. Justo no dia da audiência com o juiz. Mas respirei fundo e fui em frente. Andei duas quadras pra tomar um café na padaria. No caminho, enchi meu peito e enfiei um sorriso grande no rosto (era assim que o meu analista dizia pra eu fazer: “toda vez que algo der errado, sorria e se sinta forte que o mundo vai sorrir de volta”). As pessoas não sorriam pra mim. Estavam me olhando com uma cara esquisita, como se eu fosse um maluco ou coisa parecida. As mães puxavam as crianças pra longe de mim, as velhinhas desviavam do caminho, até o gari fez cara de nojo e saiu correndo.
Foi quando percebi duas coisas, uma desagradável por causa da outra: Tinha saído sem cueca e a minha calça estava toda descosturada no meio das pernas e atrás, na bunda. Ou seja, estava andando com tudo de fora e sorrindo pra todo mundo. Pensaram que eu era tarado. Corri pra casa com vergonha. Coloquei uma cueca e conferi bem a costura da outra calça. Depois disso, retomei o sorriso e o peito empinado e fui-me embora sem café mesmo, pois estava atrasado.
Depois teve a bendita audiência. Eu estava defendendo um cara de muito dinheiro num processo de divórcio. Era o trabalho que eu queria há tempos: ia ganhar muito se o cara ficasse satisfeito, inclusive porque ele ia me indicar pros seus amigos ricaços também. Saca? Podia mudar de vida. Esse ricaço tinha contratado um detetive particular e descobriu que a sua esposa (vinte e oito anos mais nova) estava lhe pondo chifres com um monte de garotões pés-rapados com quem ela gastava boa parte do dinheiro que ele lhe dava. E ela sempre queria mais. Ela queria metade dos bens do cara e dizia estar grávida. O cara tinha provas de que ela o traiu e nunca esteve grávida (e nem está agora) porque é estéril. Daí não queria pagar nada pra ela. Ia ser moleza, esse caso. Se eu não tivesse esquecido minha maleta em casa quando voltei pra trocar as calças.
Tomei um baita esporro do juiz. Tá rindo? Isso não foi o pior: ele ainda me deu um sabão por causa do meu paletó, do meu cabelo desgrenhado e da barba por fazer. Disse que era um relapso, vagabundo e insinuou que eu sou alcoólatra. Ouvi tudo calado, pedi mil desculpas das maneiras mais pomposas e floreadas que a faculdade me ensinou a fazer e adiei a audiência pra semana seguinte. No corredor... Você já deve ter adivinhado. Não? Ah, sabe o ricaço? Me esculhambou também. Me despediu e disse que ia fazer todo o possível pra que ninguém que ele conheça viesse, um dia, a me contratar. Nem pra ser corretor de imóveis na baixada fluminense. Já ouviu aquela expressão, “sifu”? Pois é. Mifu.
Só me restou ir comer alguma coisa. Mas, apesar de tudo, eu tinha decidido não me deixar irritar. Fui numa lanchonete, pedi um sanduba daquele tamanho, uma coca-cola e sentei na mesa do fundo, bem escondido no canto. Enquanto comia, pensei comigo: O que meu analista diria? Tentei ligar pra ele. Só que ele tinha viajado pra curtir as férias na Argentina.
Provavelmente ele diria algo tipo “Não se deixe abater” e “tem males que vem pra bem, isso pode ser o que vai te levar a uma melhora enorme, muito maior do que você imagina. Pode ser que seja a hora de você deixar este emprego por um muito melhor!” – foi o que fiquei pensando. Resolvi encarar as coisas deste jeito e abri o sorriso de novo.
Quando acabei de comer percebi que tinha deixado o dinheiro na outra calça e o cartão do banco na maleta.
Tentei explicar pro gerente, mas ele mandou o segurança me chutar pra fora – o que foi feito com extrema brutalidade. Levantei todo quebrado, depois desse vexame, e resolvi ir pra casa. Era melhor não ficar mais dando mole pro azar. Ia meditar a tarde toda pra me sentir melhor.
Quando fui buscar o carro, ele não estava mais lá. Sem perceber, por causa da pressa, estacionei na vaga reservada pra viatura da polícia e eles rebocaram o veículo. Andei por quarenta minutos, passei no escritório e pedi um trocado à minha secretária, pra poder ir pra casa de ônibus. Lá ela me deu a notícia: o dono da sala queria vende-la e pediu que a desocupasse em uma semana. Estava bem na época de renovar o contrato – o que ele, obviamente, não ia fazer.
Tomei um ônibus. Não deixava o sorriso sair do meu rosto. O trocador era antipático, o veículo estava lotado e, pra completar, fui espremido entre dois caras que fediam pra diabo. Ok. Sorriso no rosto, nada ia me abalar. Comecei a assobiar uma música. Olhava pela janela, enquanto sacolejava dentro do coletivo, pensando nas palavras do professor de meditação: “Esqueça de tudo, deixe a mente em branco. Concentre-se somente na sua respiração; ar que entra, ar que sai, ar que entra, ar que sai...” – nessa hora o ônibus freou abruptamente e eu fui lançado lá na frente.
Passei uns cinqüenta minutos em pé na lata de sardinhas, com solavancos e reclamações das pessoas nos ouvidos. Quando estava bem perto do meu ponto, o pessoal todo desceu e vagou um lugarzinho pra eu sentar perto da janela. Não ia permanecer ali por muito tempo, mas um descanso vai sempre bem, pensei. Sorte? Não, nada disso: eu acabei dormindo. Acordei com o motorista me sacudindo no ponto final – que era bem longe da minha casa, diga-se.
Pedi a ele para deixar que eu voltasse no mesmo ônibus, pois tinha perdido o ponto e etc e tal. Ele respondeu que era norma de empresa: tem que descer e pagar outra passagem. Mas eu estava sem dinheiro. Ele nem quis saber. Falou (assim mesmo, na cara de pau): “Vai a pé, então!” Que remédio? Fui a pé. Andei até o início da noite. Ah, e roubaram meus sapatos, minha calça e meu relógio nos primeiros cem metros.
Quando cheguei à porta do meu prédio, o porteiro me falou que o elevador estava quebrado. Foram treze andares de escada. Ao entrar em casa, estava tudo alagado: um vazamento no banheiro do vizinho de cima infiltrou pelo teto e inundou minha sala. Encontrei o Zaratustra – dessa vez era o livro, não o gato – todo destruído, boiando na poça. Os outros livros também estavam acabados. Felizmente, discos de vinil são à prova d’água. Infelizmente, a prateleira onde eles estavam não era. Vários discos caíram e – você já deve esperar – os meus preferidos quebraram-se em mil pedaços.
Depois de horas tirando tudo da sala, depois do zelador quebrar o meu teto todo pra consertar o vazamento, alimentei o gato, comi um arroz com feijão da semana anterior e resolvi sair pra espairecer. Ia beber uma cerveja e depois dormir. A esta altura eu já começava a esmorecer minha convicção naquele papo de “sorria e o mundo sorri de volta.”
Era tarde, numa segunda feira, e tudo estava fechado, exceto um botequim muito sujo e pequeno, que havia na rua de trás. Fui lá mesmo.
Ao chegar, o coroa do balcão me falou que a cerveja tinha acabado. Demorei pra acreditar, fiquei insistindo muito e me explicando e enchendo o saco do velho. Quando ele não agüentava mais, falou: “Olha, moço, pode revirar o freezer. Talvez você dê sorte de achar uma lata perdida embaixo dos refrigerantes, mas para de me encher!”
Sorte? Já achei difícil. Mesmo assim, revirei o freezer do coroa, tirei um monte de latas de refrigerante – o que me gastou um bom tempo. Quase desistindo, achei uma última lata de cerveja, debaixo de tudo, lá no fundo. Fiquei excitado com meu achado. Pensei logo que era ali, naquele momento que a minha sorte ia virar. Fiquei alegre de novo.
Coloquei a lata – que estava muito gelada, no ponto – em cima do balcão e fui recolocar os refrigerantes no freezer. Enquanto eu estava abaixado atrás do balcão, um cara grande entrou e pegou a minha cerveja.
“Ei, amigo, com licença, esta cerveja é minha. Tive de revirar tudo por ela e é a última. Me desculpe, mas eu realmente preciso desta cerveja.” – falei educadamente.
“Eu não estou vendo o seu nome nela.” – ele me respondeu, de uma maneira um tanto ácida. E continuou: “Se é a última, vai pra outro bar.”
Não tinha outro bar. Nesse momento foi como se o encanto tivesse terminado. Saca? Como se fosse meia-noite e a carruagem tivesse virado abóbora? Me bateu uma irritação imensurável, impossível de conter. Analisando bem, eu realmente precisava parar de sair por aí quebrando tudo. Era perigoso – basta lembrar que o cara era grande. Então fechei os olhos e imaginei o meu terapeuta falando: “relaxe e sorria”. Imaginei o professor de meditação: “ar que entra, ar que sai”. Respirei fundo. Num momento de rara clareza mental decidi que minha atitude ia mudar naquele exato instante e para toda a vida dali em diante. Abri os olhos e olhei pro cara rindo com sarcasmo da minha cara de babaca. Lembrei de novo do analista e do professor de meditação. Aí, pensei: “que se fodam, esses cretinos!”
Olhei para o cara que pegou minha lata, olhei pro coroa atrás do balcão e sorri. Então, com a maior amabilidade do mundo, falei: “Sabe, amigo, você tem razão. Pode beber sua cerveja em paz, me desculpe. Mas será que o senhor poderia me ajudar a colocar os refrigerantes de volta no freezer para eu poder ir embora?” O cara olhou pra mim. Coçou o queixo e a cabeça. Olhou à volta e me olhou de novo.
“Tá bom, magrelo. Vou te ajudar pra tu não ficar enchendo o meu saco e estragando a minha noite com essa sua cara de idiota.” – o cara falou.
Ele deixou a cerveja – que ainda estava fechada – sobre o balcão e começou a me ajudar. Quando ele estava abaixado colocando umas latas no freezer, eu, rapidamente, peguei a cerveja do balcão e sacudi com muita força, o mais rápido que pude, depois coloquei-a de volta no balcão.
Agradeci ao safado e me mandei o mais rápido que deu.
Pena não poder ver a cara dele toda molhada de cerveja.
Tem vezes que a sorte realmente não colabora. Mas tem vezes em que é preciso apenas ser um pouco “espírito de porco” pra conseguir sorrir. Quer saber? Foi nesse dia que eu resolvi deixar de ser advogado. Foi uma carreira curta, eu sei. Mas foi melhor assim. Mandei o analista e o professor de meditação se masturbarem com uma vassoura e não encherem mais o meu saco. Tenho vivido muito bem sem eles.

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