Lembra do acidente que sofri aos 35? Pois é. Pra falar da Valéria preciso lembrar desta história. Bom, estava eu no hospital, certo? Assim que a
enfermeira saiu, veio o Dr. Jorge. Ele era velho, devia ter uns sessenta nessa época. Tinha me dado aulas na faculdade de medicina anos antes. Era viciado em remédios de tarja preta e estava muito estragadão. Parecia bem mais velho. O fato
é que o meu amigo doutor parecia estar nas últimas.
“Ah, olha quem eu reencontro... João
Carlos! Coiote sem fígado, era como te chamavam, né? Presta atenção, meu filho, você está vivo por um milagre. Você quebrou tanto
osso que eu nem vou te falar a lista completa. Sem falar na porrada que a tua
cabeça deu no chão, que era pra ter rachado o seu coco feito uma noz em ceia de
natal. Me admira muito não terem tido que recolher os teus miolos do meio da
rua. Enfim... Eu sou só o médico. Te remendei como eu pude, acho até que você
vai poder levar uma vida normal quando se recuperar, mas vai precisar tomar
certos cuidados: Uma parte do seu cérebro foi muito danificada e eu tive que
arrancar ela fora. Um pedaço de vergalhão do bueiro entrou rasgando tudo. Sorte
sua não ter tido uma infecção. Mas tudo bem. É um pedaço que não serve pra
nada. Ou, pelo menos, ainda não descobriram pra que serve esta joça. Ta
sentindo alguma dor? Não, né? É pra isso que serve a morfina que a gente enfia
nas tuas veias...”
O médico riu e olhou
pela porta. Não avistando ninguém, tirou uma garrafinha de whisky do bolso e
tomou um trago longo. Arrotou, fez uma careta e sorriu.
“Chhhh. É
segredo, ta?”
Deu uma piscadela
para mim e foi saindo.
“Putz. Eu to
fodido com esses médicos. E nem me deu um trago” – pensei.
Podendo mover
pouca coisa a mais do que os olhos, a boca e o dedão do pé esquerdo, achei que um trago de whisky não ia cair mal. Resolvi que pediria ao bom doutor, quando
o visse novamente. Por hora, fiquei a sós com o medo que me assombrava. Pensava
se ainda tinha os dois rins.
Nesse momento, a
enfermeira gorda voltou.
“Aí, bonitão, tem
uma moça querendo te ver.”
Assim que a
enfermeira deixou o quarto, entrou Valéria.
“Ai, que susto
horrível! Ainda bem que você se recuperou. Eu nunca ia me perdoar se você
tivesse morrido!”
“Obrigado pela
preocupação. Mas não fica aflita, a culpa não foi sua. Eu é que fiquei
divagando no meio da rua...”
“Mas foi porque
eu esbarrei em você. Imagina, se você morresse por causa de um esbarrão meu?
Ah, Deus me livre!”
“Não foi nada.
Daqui a pouco eu to bem. Só quebrei uns ossos e perdi um pouquinho de massa
encefálica. O médico disse que não vai fazer falta. E aqueles papéis todos? O
que você fez com eles?”
“Eu trouxe todos
eles. Estão no corredor.”
“Posso te pedir
um favor?”
“Claro.”
“Queima tudo.
Pode ser?”
“Mas... Não era
importante?”
“Era. Quer dizer,
era só pro meu chefe. Ele que se dane. Detesto aquele emprego. Agora eu estou
acidentado e ele não pode me despedir.”
“Você é um cara
engraçado. Está todo arrebentado e ainda faz piada.”
“Mudando de
assunto... Você podia me fazer um outro favor? Desculpa, prometo que é o
último.”
“Pode falar.”
“Em algum lugar
deve ter um prontuário, uma ficha, sei lá, algo sobre o meu estado. Você pode
procurar e ler pra mim? Sabe, eu nem sei como dizer... É que eu queria saber se
não roubaram nada do meu corpo, entende? Eu não consigo me mexer, estou aqui em
pânico com a idéia de alguém ter me roubado um rim ou coisa parecida.”
Valéria riu.
Procurou pelo prontuário, leu-o, tranqüilizou-me e começamos a conversar.
Contavamos piadas bobas e riamos feito crianças. A enfermeira gorda teve de pedir
para não fazermos barulho, pois os outros pacientes estavam incomodados com as nossas gargalhadas altas.
A minha recuperação foi lenta. Vários meses se passaram até que recebesse alta. Valéria ia
sempre ao hospital para visitar-me; pelo menos três vezes por semana. Ficamos muito
amigos; conversávamos sobre muita coisa, víamos filmes na TV tosca do quarto, líamos o jornal juntos... Tornamo-nos bem íntimos, ao ponto de haver confiança mútua o
suficiente para confidenciarmos coisas secretas um ao outro. Viramos amantes.
Quando saí do hospital, ela veio buscar-me de táxi para levar-me para casa.
Eu não tinha
parentes na cidade. Minha família era lá do sul, quase não tinham contato. Na
verdade, eles nem mesmo souberam do acidente que deixou a mim todo quebrado.
Nunca fui um cara muito social. Tinha poucos amigos. Nessa época, gostava mesmo era
de ficar em casa vendo TV, fazendo palavras cruzadas e enchendo a cara. Lia muito, escrevia um
pouco, mas quase não saía. Assim sendo, não havia ninguém senão Valéria
esperando minha recuperação e volta pra casa.
Eu ainda tinha
que usar muletas para andar, mas a fisioterapia resolveria isso em um mês ou
dois. Quando entramos em casa, estava tudo do mesmo jeito que eu tinha
deixado naquela manhã do acidente. Com muita poeira a mais, claro.
“Você vai ficar
bem?”
“Vou sim. Pode
ir. Vou só tirar um pouco do pó na cama e deitar. Estou cansado pra burro. Acho
que vou dormir uma semana.”
“Eu preciso
trabalhar. Quer beber um vinho, pra comemorar?”
“Eu topo.”
“Então ta. Volto
à noite. Beijo.”
Ela saiu e fechou
a porta atrás de si. Eu sentei no sofá, em meio a um monte de tralhas, acendi
um cigarro do maço que estava sobre a mesinha de centro e fiquei pensando:
“Putz. Estava sem fumar há meses!”
Acabei dormindo
sentado.
Quando a noite
caiu, um estrondo me acordou. Parecia uma enorme batida. Fui com alguma
dificuldade até a janela e reparei num acidente muito feio: dois carros se
chocaram contra um ônibus. Tinha muito tumulto e gente gritando. Fechei a
persiana e voltei ao sofá. Liguei a televisão e fiquei esperando Valéria voltar. Só que ela não voltou.
Esperei por
horas, até a madrugada. Nada. Resolvi ligar para ela. Na sua casa, o telefone chamava e ninguém atendia.
Eu esperei.
Nada. Acabei dormindo em frente à TV ligada.
De manhã, acordei com o primeiro telejornal do dia que estava começando. Ainda meio sonolento,
esfreguei os olhos e percebi que estavam falando sobre o acidente da noite
anterior. Havia vítimas. Três homens e uma mulher morreram. Um deles era um
policial bigodudo e de grande barriga. O outro, um desempregado que tinha vindo
do norte e trabalhou na construção civil. O terceiro era um pastor da igreja
batista, dessas igrejinhas pequenas, de fundo de quintal.
Quando mostraram
a mulher... Claro que sim. Era Valéria. Não tive dúvida. Deus do céu. Esse foi o dia mais difícil de toda a minha vida. Sempre caguei e andei para tudo. Valéria foi a primeira coisa que me pareceu valer à pena. Eu a amava de verdade. Acho que nunca superei a sua perda.
Fui ao
enterro da jovem, conheci sua família e todos estavam muito tristes,
obviamente. Não consegui ficar até o final por causa das dores de cabeça
fortes que me ocorreram.
Saí do cemitério e entrei no primeiro bar que encontrei. Passei então duas semanas bêbado ininterruptamente. Trago, entre um trago e outro, a lembrança desta mulher até hoje. Nunca mais amei como a ela. Uma parte de mim morreu com a Valéria, no fim dos anos setenta. A parte que sabia sonhar.
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