Capítulo 4: O Conto de Um Homem Magro

   Quando tinha 26, tive uma febre muito forte. Foi logo depois de uma festa muito louca, da qual não me lembro nada. Ninguém sabia explicar. Passei uma semana tendo delírios, numa cama suja, de uma pessoa que nem sei quem era. Num quarto escuro e úmido, no grande calor de Macapá, foram exatamente sete dias imerso numa sensação suave de estar super-pesado. Tamanho desalento que o próprio tempo parecia estar passando mais lentamente. Uma calma inexplicável. Como se por indiferença. A contemplação tornou-se tão pesada que não sobrou força nem para desejar. Ou para temer. Uma ressaca ontológica que se chocou contra as pedras em ondas furiosas mas sem que ninguém percebesse. Olhos fundos, olhar perdido e morto.
 Cansado de fugir de mim mesmo, acabei por oferecer com desdém o pescoço à fera.
Estávamos eu e Bob Dylan apenas, eu sentado no sofá e ele cantando preso no toca-discos, quando aconteceu. Like a rolling stone.
Em breve a metamorfose se teria cumprido, esvaziando essa farsa existencial que eu chamo de eu e tornando-me o vulto invisível que de fato sempre fui, o fantasma, o que se sente mas não se encontra. Aquele-que-não-está-aqui. Tudo foi se esvaindo e com a falta do que perder, perde-se o medo. Havia uma certa melancolia embalando meus pensamentos. A solidão açoitou em ventos frios e dilacerantes. Não havia casaco ou cobertor que desse jeito, não havia multidão que chegasse até mim, não havia grupo ao qual eu pertencesse. Um pária.
There must be some kind of way out of here... Said the Joker to the Thief...
Uma sombra que se move ao largo, um espectro marginal que se equilibra na borda da realidade. Eu sou um homem que só se sente à vontade com as feras. Mas que não pertence ao mundo delas, nem ao seu próprio; sem origem, sem destino. Ainda assim, se expiando, como tudo à volta, imerso na percepção da decadência como processo contínuo e lento, dividido em cada momento de cada dia... É quase como se eu sentisse mesmo que cada dia a mais é sempre um dia a menos. Não obstante, eu ria da cara da morte, com um sarcasmo típico de quem sabe que não há saídas.
You used to laugh about...
Era esse o momento decisivo, a entrada no casulo. O recolhimento, o nada criativo.
But now you don´t talk so loud, but now you don´t seem so proud...
Eu estava devaneando. A dor é psicodélica sob certos aspectos. Um caos de sensações, uma desconstrução dos apoios que joga tudo pro ar em padrões diversos, mutantes, misturando aspirações com sentimentos tão primitivos – selvagens – que chegam a fascinar, de tão assustadores e mortíferos. É uma ligação direta com a parte mais animal que temos, algo que nos mostra claramente todos os legados de todos os nossos ancestrais. Como o instinto sexual também.
Sobreviver. Esse é o único sentido. Passar a vida adiante.
Tive que deixar uns pedaços meus pra trás, para poder prosseguir, sobreviver. Estavam eles me prendendo, me impedindo mesmo de me alimentar. Agora estou no casulo. Esvaziado de tudo, pronto a me encher de novo e fechar mais um ciclo...
Precisava manter minha mente ocupada. Os devaneios serviam bem. Se eu deixasse a vigília, se adormecesse um único instante... Tudo podia se perder.
Como controlar um furacão dentro do peito? Como ter calma? Como passar despercebido? Por mais necessário que seja, não deixa de ser difícil.
How does it feel? To be such a freak?
There’s something happening but you don’t know what it is... Do you, Mr. John?  
Mandei o Bob Dylan calar a boca. Minha cabeça doía.
Mas a verdade é que eu não queria responder à sua pergunta. Fingi pra mim mesmo que eu sabia o que estava fazendo.
Acho que eu também estava um pouco rancoroso por ele ter esfregado a verdade nas minhas fuças.
Devaneios. Talvez eu estivesse enlouquecendo de forma célere.
A febre aliviou um pouco, deixando uma fina brisa soprar as nuvens tempestuosas que embaçavam meus pensamentos pra entrar uma luz, fraquinha é verdade, um momento pra respirar.
Oh, vida, malditos serão sempre os que te servem sinceramente?
Por que chicoteia seus amantes?
Quero as aventuras do rock e as bacantes!
Delírios. A febre aumentou de novo e fiquei confuso. Meu corpo esquálido, mais esquálido que de costume. As roupas me ficavam largas e caíam. Os sonhos também. Ficavam largos e caíam.
Estava fraco. Confuso. Desolado. Estava tão frio e eu tinha uma febre tão alta que chegava a fumegar, o meu corpo. Como se eu me evaporasse aos poucos...
Um ser volátil... acho que é isso.
There´s too much confusion, I can get no relief...
Estranhamente, meus delírios foram desfeitos com um cheiro... Acre? Doce? Não sei. Fiquei um tempo para conseguir distinguir, diante de tantos delírios olfativos que me acometiam. Mas enquanto outros cheiros vinham a mim como borboletas coloridas e leves, este cheiro parecia um boi. Era grosseiro, provocador, bruto. Um cheiro que quase mugia nos meus instintos, faz com que minhas terminações nervosas ficassem como o Maracanã em dia de final de campeonato.
Despertei com uma tosse tremenda e sufocante, como se meus pulmões estivessem querendo ejetar através das minhas costelas... Fogo! Senti o cheiro do fogo, não a fumaça, o cheiro do fogo. Meus olhos pegavam fogo. Meus ouvidos pegavam fogo. Minha pele pegava fogo. Minha boca. Quando o fogo dominou o meu coração, e este se explodiu feito mil bombas atômicas, irradiando pela minha garganta, pelas minhas entranhas e então... Eu me tornei o fogo. No momento eu não tinha percebido, só queria desfazer as chamas, não sentia mais nada, não era mais nada. Só podia pensar na chama crescente e me fiz incêndio para apaga-la.
Mas ela não se apagou. Ela agora era eu. E eu, confiante de meu triunfo sobre as piras nadificantes da realidade, portei em meu peito a tocha sulfúrica do ódio, o fogo que resulta da combustão do amor. Meus sentidos foram anestesiados pela fumaça densa e sedutora da domesticação. A fera se escondeu de mim, numa caverna profunda e úmida, masmorra onde meus sonhos se tinham aprisionado, em protesto contra mim.
Eu trilhei tenebrosos caminhos, usando o fogo tóxico do meu coração para iluminar o caminho, deixando na treva que ficava para trás um rastro de destruição. Só com a minha presença. Só por passadas que eu dava. Mas a chama se ia alimentando, cada vez mais forte... A fera estava preocupada, ela tentava me ensinar que nem sempre a escuridão deve ser dissipada, eu não podia querer iluminar o mundo com o meu fogo sulfúrico alimentado com restos de coração partido ou acabaria queimando tudo como um sol muito próximo, não traria o calor confortante, traria as chamas do inferno.
Eu não ouvia. Eu não via. Não sentia nada. Só o ódio queimando lentamente.
A fera sabia que não poderia apagar um incêndio de tamanha proporção.
Ela resolveu consumi-lo.
Ela então abriu sua boca e me engoliu, deixando que eu visse o mundo com seus olhos, inundando meu ser com torrentes arrebatadoras de amor, de luxúria, de desejo, de beleza, de liberdade, de dor e de risco, alagou-me com tamanha plenitude que foi como se ela trouxesse todo o universo pra dentro de mim.
Eu senti-me o próprio universo, o recipiente maior, o que contém todo o conteúdo possível e impossível, o que contém a contingência. Esse maremoto de amor em estado bruto caiu como gasolina sobre a fúria incandescente no meu peito.
A fera sabia que todo este combustível seria demais. Nem mesmo a explosão de milhões de sóis poderia exceder o calor que eu emanava ao explodir.
Sem nada mais para consumir, a chama se apagou.
Eu me tornei um amontoado de cinzas.
A fera sorria seus caninos de marfim. Soltou um sopro leve.
Foi quando eu senti minhas partículas de carvão se revolverem e se desagregarem, sendo levadas pelo vento.
How does it feel?
To be on your own?
With no direction home?
To be complete unknown?
Minhas cinzas se depositaram sobre as rochas. Se fundiram à elas. E desci do céu barulhento, destruidor, selvagem.
Just like a rolling stone.
Bob Dylan estava lá falando quando eu abri os olhos.
A febre se dissipara.
A realidade se remontava como um quebra-cabeças e eu percebi que a peça da qual eu sempre dei falta era eu.
Minha saúde se restaurava.
A fera havia sumido. Fui andando, trôpego ainda, pela imensidão limitada do quarto escuro e vazio. 
Minha saúde se restaurava.
Notei que a cada passo que eu dava, deixa pegadas luminosas que não eram minhas, eram da fera.
Minha saúde se restaurava. Foi quando ouvi:
There’s something happening here, but you don’t know what it is... Do you, Mr. John?
Respondi prontamente:
"Por favor, Bob, deixe-me sozinho. Eu começo a compreender..."
Assim que me recuperei, larguei a medicina, larguei minha casa, larguei toda minha vida passada e meti o pé na estrada, sem dinheiro e só com a roupa do corpo.
Just like a rolling stone.

Nenhum comentário:

Postar um comentário