Capítulo 3: Quase Meia Noite

Boa noite. Desculpe aparecer numa hora como esta, mas precisamos conversar. Venho da parte do senador Hamilton. Sim, eu sabia que ia querer que eu entrasse. O senhor tem café? Enquanto tomamos café, eu lhe explico o motivo da minha visita. Mas, antes gostaria de dividir com você um fato que me ocorreu ano passado. Por incrível que pareça, uma coisa leva à outra. É quase meia noite. Grande coisa. O ano vai mudar, mas o tempo... É o mesmo. Eu não ligo pra isso. São só convenções, não é? Você não se importa de eu colocar um conhaque no café, certo? Só bebo assim.
Bem, vinha eu caminhando a este mesmo horário, exatamente um ano atrás. A rua era a mesma de sempre. Só não estava cheia de gente, aliás, parecia que todas as pessoas do mundo tinham sumido sem deixar rastro, restando sobre a superfície do planeta um monte de prédios vazios, carros abandonados e um silêncio capaz de quebrar vidros, de tão alto. E eu, claro. Sou um cara tão deslocado que era bem capaz de eu sobreviver ao apocalipse somente porque eu sempre estou de fora do que os outros fazem. Se todos fossem imortais, eu morreria, mas se todos morressem, era bem capaz de eu ficar por aí vagando como sempre faço.
Eu estava meio desanimado com minha profissão atual, cansado de tudo. Isso de me desanimar já tinha acontecido uns anos antes e mudou minha vida. Vivi feliz de novo por um tempo, mas nos últimos tempos tudo me parecia chato outra vez. E aparentava ser ainda mais fútil e estúpido naquele momento em que eu caminhava pela rua.
Suavemente, uma sensação de liberdade me tomou diante da realidade que eu confrontava. Andando pelas ruas silenciosas e vazias, percebi que meu maior problema, por cinqüenta anos, foi conseguir sobreviver ao convívio social. Assim que ele desapareceu, senti que tudo estava certo. Continuei andando por alguns metros, até me deparar com um ruído pequeno que vinha de um canto da rua. Olhei com calma. Não via nada. Fui me aproximando e vasculhei umas folhas que cobriam parte do meio-fio. Para minha surpresa, era um pequeno filhote de coruja, já com penas, talvez aprendendo a voar. Sua asa esquerda estava ferida.
Catei o filhote com cuidado, puxei um lenço do bolso e envolvi a ave. Isso aconteceu a dois ou três metros do meu portão. Levei o bichinho para dentro, dei umas gotas de tintura de arnica pra ele beber com um conta-gotas e fiz um curativo com band-aid na sua asa. O jovem animal pareceu ficar um pouco mais esperto, depois de alguns minutos. No fundo do quintal, tinha um abacateiro enorme, que vivia carregado de frutos e atraía muitos animais noturnos. De frente para o abacateiro havia uma pequena goiabeira. Coloquei a coruja empoleirada na goiabeira. Ela piou um pouco e logo pude ouvir uma resposta vinda do quintal do vizinho.
O bicho ia se virar. Deixei a coruja lá e entrei. Sentei no sofá e pensei comigo o quanto tinha sido boa aquela sensação de solidariedade para com o pobre animal ferido. O que me deixava cismado era o fato de eu não conseguir sentir o mesmo por meus semelhantes. Eu não faria por uma pessoa a metade do que fiz pela pequena ave de rapina. Não sei porque sou assim. Sempre fui deste jeito. Só que antes eu achava que isso era uma espécie de defeito e eu ficava tentando corrigir com um monte de medalhas, diplomas e atos altruísticos, até heróicos, duas ou três vezes. Eu era um modelo de caridade e humildade, de determinação e empenho, mas era tudo falso. E no fundo eu sempre soube. Tentava negar e me convencer do contrário, mas era tudo falso e eu sabia disso.
De repente, meus trinta e sete anos de estudo não eram nada. Meus títulos, minhas honrarias, minha posição social, era tudo falso. Entende o que isso significa? Eu não sentia um mínimo de compaixão, solidariedade ou afeto por qualquer daqueles idiotas. Nem os idiotas que eu ajudava, nem os idiotas que me davam prêmios, nem os idiotas que me idolatravam por isso tudo. Na verdade, eles me davam nojo. Acho que me compadeço das feras porque elas não têm moral. Nós, seres morais, somos repulsivos. Você já passou por uma revolução assim? Não? É dilacerante. A coruja me fez reviver toda a minha vida. Entender meu lugar no mundo. Já estou fazendo esse trabalho há um tempo e as coisas vão se banalizando tanto que a gente esquece o sentido das coisas. Perde sua essência. A coruja me fez lembrar porque eu estou neste trabalho e confesso que fiquei contente.
Quando o relógio de pêndulo do meu velho avô bateu as doze horas, os fogos acabaram com meus instantes de paz e liberdade de uma forma radical e violenta. As pessoas voltaram ao mundo e fizeram questão de se fazerem notar. Eu odeio fogos. Embora eles tenham sua utilidade. Você não entendeu? Vai entender.
Meu trabalho é dar alguns recados que precisam de um cuidado maior. Às vezes vou dar recados pra pessoas em lugares muito distantes. Hoje, foi perto de casa. Moramos no mesmo condomínio! Vantagem de se morar em bairro de bacana. Aliás, você já foi a alguma das reuniões da associação de moradores? Não? São uma palhaçada. Aquele gordinho de bigode que mora no bloco 3 embolsa a grana da gente rica e besta deste lugar e não tem quem resolva o vazamento da rua de baixo, não é? É tudo palhaçada. Tudo. E nós somos os palhaços.
Olha, estive no magistério por vinte anos, fiz trabalhos sociais dos dezesseis até os quarenta, fundei entidades filantrópicas, mas larguei tudo. As instituições me dão arrepio. Tenho 57. Agora sou free-lancer. Olha só: vai bater meia noite. Está na hora.
Vim lhe desejar feliz ano novo. São os votos do senador Hamilton. Desculpe não trazer um cartão.
(Nesse momento ouviu-se um tiro, que ficou encoberto pelo foguetório.)
Sabe, já sou assassino de aluguel há dez anos. Nunca se é velho demais para descobrir sua verdadeira vocação, não é mesmo?
Ah, amigo: desculpe a sinceridade, mas o teu café é uma merda e esse conhaque é falsificado...

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