Boa noite.
Desculpe aparecer numa hora como esta, mas precisamos conversar. Venho da parte
do senador Hamilton. Sim, eu sabia que ia querer que eu entrasse. O senhor tem
café? Enquanto tomamos café, eu lhe explico o motivo da minha visita. Mas,
antes gostaria de dividir com você um fato que me ocorreu ano passado. Por
incrível que pareça, uma coisa leva à outra. É quase meia noite. Grande coisa.
O ano vai mudar, mas o tempo... É o mesmo. Eu não ligo pra isso. São só
convenções, não é? Você não se importa de eu colocar um conhaque no café, certo? Só bebo assim.
Bem, vinha eu caminhando
a este mesmo horário, exatamente um ano atrás. A rua era a mesma de sempre. Só
não estava cheia de gente, aliás, parecia que todas as pessoas do mundo tinham
sumido sem deixar rastro, restando sobre a superfície do planeta um monte de
prédios vazios, carros abandonados e um silêncio capaz de quebrar vidros, de
tão alto. E eu, claro. Sou um cara tão deslocado que era bem capaz de eu
sobreviver ao apocalipse somente porque eu sempre estou de fora do que os
outros fazem. Se todos fossem imortais, eu morreria, mas se todos morressem,
era bem capaz de eu ficar por aí vagando como sempre faço.
Eu estava meio
desanimado com minha profissão atual, cansado de tudo. Isso de me desanimar já
tinha acontecido uns anos antes e mudou minha vida. Vivi feliz de novo por um
tempo, mas nos últimos tempos tudo me parecia chato outra vez. E aparentava ser
ainda mais fútil e estúpido naquele momento em que eu caminhava pela rua.
Suavemente, uma
sensação de liberdade me tomou diante da realidade que eu confrontava. Andando
pelas ruas silenciosas e vazias, percebi que meu maior problema, por cinqüenta
anos, foi conseguir sobreviver ao convívio social. Assim que ele desapareceu,
senti que tudo estava certo. Continuei andando por alguns metros, até me
deparar com um ruído pequeno que vinha de um canto da rua. Olhei com calma. Não
via nada. Fui me aproximando e vasculhei umas folhas que cobriam parte do
meio-fio. Para minha surpresa, era um pequeno filhote de coruja, já com penas,
talvez aprendendo a voar. Sua asa esquerda estava ferida.
Catei o filhote
com cuidado, puxei um lenço do bolso e envolvi a ave. Isso aconteceu a dois ou
três metros do meu portão. Levei o bichinho para dentro, dei umas gotas de
tintura de arnica pra ele beber com um conta-gotas e fiz um curativo com
band-aid na sua asa. O jovem animal pareceu ficar um pouco mais esperto, depois
de alguns minutos. No fundo do quintal, tinha um abacateiro enorme, que vivia
carregado de frutos e atraía muitos animais noturnos. De frente para o
abacateiro havia uma pequena goiabeira. Coloquei a coruja empoleirada na
goiabeira. Ela piou um pouco e logo pude ouvir uma resposta vinda do quintal do
vizinho.
O bicho ia se
virar. Deixei a coruja lá e entrei. Sentei no sofá e pensei comigo o quanto
tinha sido boa aquela sensação de solidariedade para com o pobre animal ferido.
O que me deixava cismado era o fato de eu não conseguir sentir o mesmo por meus
semelhantes. Eu não faria por uma pessoa a metade do que fiz pela pequena ave
de rapina. Não sei porque sou assim. Sempre fui deste jeito. Só que antes eu
achava que isso era uma espécie de defeito e eu ficava tentando corrigir com um
monte de medalhas, diplomas e atos altruísticos, até heróicos, duas ou três
vezes. Eu era um modelo de caridade e humildade, de determinação e empenho, mas
era tudo falso. E no fundo eu sempre soube. Tentava negar e me convencer do
contrário, mas era tudo falso e eu sabia disso.
De repente,
meus trinta e sete anos de estudo não eram nada. Meus títulos, minhas
honrarias, minha posição social, era tudo falso. Entende o que isso significa? Eu
não sentia um mínimo de compaixão, solidariedade ou afeto por qualquer daqueles
idiotas. Nem os idiotas que eu ajudava, nem os idiotas que me davam prêmios,
nem os idiotas que me idolatravam por isso tudo. Na verdade, eles me davam
nojo. Acho que me compadeço das feras porque elas não têm moral. Nós, seres
morais, somos repulsivos. Você já passou por uma revolução assim? Não? É
dilacerante. A coruja me fez reviver toda a minha vida. Entender meu lugar no
mundo. Já estou fazendo esse trabalho há um tempo e as coisas vão se
banalizando tanto que a gente esquece o sentido das coisas. Perde sua essência.
A coruja me fez lembrar porque eu estou neste trabalho e confesso que fiquei
contente.
Quando o
relógio de pêndulo do meu velho avô bateu as doze horas, os fogos acabaram com
meus instantes de paz e liberdade de uma forma radical e violenta. As pessoas
voltaram ao mundo e fizeram questão de se fazerem notar. Eu odeio fogos. Embora
eles tenham sua utilidade. Você não entendeu? Vai entender.
Meu trabalho é
dar alguns recados que precisam de um cuidado maior. Às vezes vou dar recados
pra pessoas em lugares muito distantes. Hoje, foi perto de casa. Moramos no
mesmo condomínio! Vantagem de se morar em bairro de bacana. Aliás, você já foi
a alguma das reuniões da associação de moradores? Não? São uma palhaçada.
Aquele gordinho de bigode que mora no bloco 3 embolsa a grana da gente rica e
besta deste lugar e não tem quem resolva o vazamento da rua de baixo, não é? É
tudo palhaçada. Tudo. E nós somos os palhaços.
Olha, estive no
magistério por vinte anos, fiz trabalhos sociais dos dezesseis até os quarenta,
fundei entidades filantrópicas, mas larguei tudo. As instituições me dão
arrepio. Tenho 57. Agora sou free-lancer. Olha só: vai bater meia noite. Está na hora.
Vim lhe desejar
feliz ano novo. São os votos do senador Hamilton. Desculpe não trazer um
cartão.
(Nesse momento
ouviu-se um tiro, que ficou encoberto pelo foguetório.)
Sabe, já sou
assassino de aluguel há dez anos. Nunca se é velho demais para descobrir sua
verdadeira vocação, não é mesmo?
Ah, amigo: desculpe
a sinceridade, mas o teu café é uma merda e esse conhaque é falsificado...
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