Capítulo 2: Escatológica

   Um dia, tinha eu uns vinte e poucos anos, estava andando pela rua depois de ter bebido umas dúzias de cerveja com um punhado de amigos, pensando na morte da bezerra ou coisa assim. Foi quando me deu uma vontade absurda de mijar; é, cerveja é diurético... 
De imediato, pensei em me aliviar num muro qualquer, mas a rua estava movimentada e não tinha nenhum lugarzinho mais reservado. Normalmente, eu nem ligaria pra isso, mas diante de uma viatura que me observava, resolvi procurar um banheiro. Eram duas e meia da tarde, não tinha nenhum bar, restaurante, loja ou o diabo que fosse, só edifícios de escritórios e consultórios; entrei num prédio que estava logo adiante, tomei o elevador e desci no primeiro andar que ele parou – que foi o quinto. Assim que avistei uma porta aberta, entrei. Era um consultório de dentistas.
“Boa tarde senhor, em que posso servi-lo?”
A secretária era simpática e muito bonita.
“Ah... Eu preciso marcar uma hora pra fazer um check up.”
Fiquei com vergonha de dizer que só queria ir ao banheiro.
“Pois não. Queira por favor preencher estas fichas.”
Eu estava quase me molhando todo, não agüentava mais, e as tais das fichas não acabavam nunca, fui ficando desesperado. Tremia, suava, ficava fazendo uns trejeitos com as pernas, os outros caras que estavam no consultório ficavam me olhando como se eu fosse um ET ou coisa parecida.
Depois de, finalmente, preencher e assinar tudo, a secretária me sorriu e disse:
“Pode aguardar ali, senhor.”
“Ah... Moça, onde é o banheiro, por favor?”
“Seguindo o corredor, segunda porta à direita.”
Saí andando atrapalhadamente e esbarrando nas coisas, chegava a ter os olhos esbugalhados, cheguei diante do banheiro e... estava ocupado. Putz. Eu me contorcia na frente da portinha branca que me separava da redenção como se fosse um verme sendo queimado pelo calcário que despejam para alcalinizar o solo. Os pacientes se deliciavam vendo meu terror. Riam de canto lábio, disfarçadamente, os outros funcionários pareciam deleitar-se em me ver apresentar aquele espetáculo patético. Eu sofria e o mundo todo parecia rir disso. Talvez fosse uma conspiração pra se divertir às minhas custas, uma pegadinha ou...
Antes que eu fosse dominado pela paranóia ou mijasse nas calças, ouvi o trinco se abrir. A portinha branca se abriu em seguida e saiu uma mulher gorda, mas muito gorda mesmo, que se espremia pra passar nos portais estreitos, com um nariz grande de narinas abertas, aparentando uma leitoa de exposição agro-pecuária, como quem não tinha a menor pressa. Reparei na sua roupa e achei que ela parecia uma vaca, com manchas pretas e tudo.
Assim que o caminho ficou livre, fui como um raio e tranquei a porta. Só aí percebi que o ar estava irrespirável, tóxico, venenoso, era como se eu estivesse trancado num cubículo com um milhão de cachorros mortos! Mesmo sentindo vontade de vomitar, abri a braguilha da calça, botei o instrumento pra fora e, finalmente, comecei a mijar. A sensação de alívio me provocava um prazer indescritível, mas misturada ao ar nauseabundo me deixou numa espécie de transe; era como se o tempo tivesse parado. Comecei a escutar uma voz feminina cantando ópera através da pequenina janelinha no alto da parede; percebi vir também de lá um funk desses bem chulepentos e vulgares, um barulho de motores, provavelmente do elevador, passos no andar de cima, batidas numa porta, tudo ao mesmo tempo, cadenciado pelo som constante da urina caindo na água do vaso, compondo uma cacofonia de tal maneira caótica que parecia até ter um nexo;  Absurdo, claro, mas um nexo.
De repente, o mijo acabou e o encanto se desfez como um prédio que desaba. Num instante, o cheiro horrendo me tomou de assalto e eu não pude evitar um vômito que emporcalhou todo o canto do banheiro.
Senti minha pressão baixar e quase desmaiei, apoiando-me na parede lateral com todas as forças, para não tombar sobre o vaso e a poça de vômito. Ao olhar para o vaso, avistei alguns marinheiros à deriva, já se desfazendo, e vomitei de novo sobre a pia. Por sorte, ainda não tinha sujado as minhas roupas, então reuni minhas forças, com cuidado lavei o rosto e a boca, sem tocar no vômito, e saí do banheiro. Ninguém.  Me refiz, andei calmamente até a sala de espera e sentei numa cadeirinha acolchoada muito bonitinha, mas que não dava muitos ares de confiabilidade.
Olhei à volta, tentando ser discreto, e dei de cara com a gorda, que era uma leitoa e uma vaca ao mesmo tempo. Ela sorriu sem graça, por trás de uma revista vagabunda dessas e virou os olhos pra outro lado. Pensei em dizer “Dona, a senhora está podre! Acho que a senhora comeu um urubu!”, mas acabei deixando pra lá. A gorda percebeu o que eu estava pensando só pelo meu olhar e ficou toda vermelha. Agora eu não sabia mais se ela era uma porca, uma vaca ou um imenso tomate estragado.
Fiquei tentando arranjar uma forma de ir embora sem causar muito furor. É que eu também queria pegar o telefone da secretária. Fiquei pensando em um milhão de desculpas, nenhuma parecia convincente.
Esperei ali, sem nenhuma idéia e acabei dormindo. Sonhei, até; estava num enorme sofá, muito vermelho, com almofadas muito macias, então a secretária aparecia, vestindo apenas o sutiã e uma meia fina e transparente que realçava ainda mais as coxas dela. Ela vinha se deitando por cima de mim, abrindo minhas calças e começava a me chupar - com muita habilidade, por sinal - e eu ia afundando no meio daquela vermelhidão macia... Num dado momento, ela subiu, passou sua perna sobre mim e encaixou-se montada sobre meus quadris, mexendo e gemendo...
Eu ia à loucura. Sem mais nem menos, quando eu estava prestes a ter um orgasmo, comecei a sentir um cheiro estranho, um cheiro ruim. Ela me disse que continuasse, que ignorasse o cheiro, pois estávamos quase lá. Segui em frente, apertando as coxas dela e me mexendo num ritmo crescente e envolvente, mas o cheiro só aumentava e eu ia ficando enjoado. A secretária ninfomaníaca do meu sonho não me deixava parar e o cheiro ia me transtornando tanto que eu não agüentava mais. Foi tudo ao mesmo tempo: um orgasmo, um vômito e a visão de uma portinha branca se abrindo e inundando tudo com merda, esperma e vômito, em ondas que arrebataram tudo em seu caminho, mesmo assim, a secretária não me largava e ficava gritando “Mais! Mais!” e rebolando sobre mim, e nós dois soçobrando num interminável oceano de bosta...
Acordei desesperado, com um grito entalado na garganta.
A secretária estava à minha frente. Vestida, claro.
“Agora é a sua vez, senhor.”
“Sim, sim, obrigado.”
Ainda meio atordoado, entrei na sala do dentista. Era um cara alto e com um ar meio esnobe. Me pediu licença para ir ao banheiro, antes de começarmos.
“Lave as mãos direito, por favor, sim?”
Foi a única coisa que consegui dizer. Ele ficou meio de cara amarrada, mas empinou seu nariz e se mandou da sala. Acomodei-me na cadeira de dentista e fiquei ali pensando na secretária. Passaram-se dez minutos. Vinte minutos. Trinta minutos. Depois de quase uma hora esperando, já meio sonolento de novo, ouvi um grito, um grito da secretária.
Imediatamente, aquilo me acordou e eu levantei num pulo para ver o que tinha acontecido. Cheguei no corredor e a moça estava gritando diante de uma portinha branca entreaberta. O fedor era insuportável.
Quando olhei pra dentro da portinha branca... O dentista, com as calças arriadas, caído no chão, com um baita rombo na cabeça, misturado à uma massa caótica de louça quebrada, sangue, vômito e merda, ainda tendo alguns espasmos. Deduzi instantaneamente que ele deve ter tentado cagar acocorado sobre o vaso, escorregou, caiu, quebrou a privada, se arrebentou todo e ali estava o resultado. Abracei a secretária e disse:
“Chame uma ambulância. Ele vai ficar bom.”
Claro que era mentira. Ele já estava morto. Que maneira horrível de morrer: com as calças arriadas, a bunda pra cima e a cara na merda. Terrível. Assustador.
Depois que os bombeiros levaram o corpo e certificaram a todos que o pobre dentista estava morto, ofereci-me para levar a traumatizada secretária para casa.
“Sabe, foi um choque muito grande. Vou fazer um chá de camomila pra você que vai te fazer acalmar...”
Chegando lá, na casa da mulher, logo que entrei vi um enorme sofá vermelho com almofadas maravilhosamente macias. Fui até a cozinha, preparei um chá pra moça e voltei pensando em tudo que tinha acontecido neste dia. Ela bebeu e se acalmou. Aos poucos fomos conversando e, meio sem perceber, de repente estávamos nos beijando. Quando ela abriu minha calça eu a interrompi bruscamente e disse: “espera um pouco”.
Levantei do sofá correndo, com as calças na mão, fui até o banheiro - uma portinha branca, porque sempre uma portinha branca? – e com muito cuidado, cheirando bem o ar em volta, abri. Olhei pra dentro. Tudo limpo, brilhando. Levantei a tampa do vaso e olhei: só água, tão transparente que dava até pra se pensar em beber. Fiquei aliviado.
Voltei correndo, joguei as calças longe e disse:
“Podemos continuar, broto. Desta vez não vamos ser inundados!”

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