Capítulo 1: O Acidente

Eu vinha distraído e apressado, atrapalhado com todos aqueles pensamentos estranhos e coisas para carregar. Tantas pastas, livros, cadernos, bolsas, sacolas... Estava me sentindo como um daqueles antigos burricos de cigano - ou uma árvore de natal - com todas aquelas tralhas penduradas. Não eram coisas muito pesadas, mas coisas que me deixavam sem jeito pra carregar tudo de uma vez. E ainda, com muita pressa: estava atrasado para o trabalho pela quinta vez antes da primeira semana do mês terminar. Já tinha levado uma chamada do chefe, no dia anterior. Aquele seboso arrogante chegou olhando de cima com ar de superioridade vomitou toda aquela sua frustração por ser um merda ignorante. Queria ver. Esse merda não entendia porra nenhuma do assunto e ficava cagando regras pra todo mundo. Queria ver ele se virar sem ter a mim pra limpar as cagadas que ele faz. Justo no dia do meu aniversário de trinta e cinco anos! Tava de saco cheio daquele idiota.
Mas o que realmente pesava sobre mim era aquele monte de pensamentos esquisitos que me assombravam nas últimas semanas. Estava com a idéia fixa de que faltava um pedaço do meu cérebro. “Que idéia mais maluca!” – pensava.  Mas não deixava de pensar nisso. Era uma sensação estranha de ter certas capacidades que me foram surrupiadas. Sei que é loucura, mas estava sentindo um monte de piripaques na minha mente. Era como uma máquina em curto. Resolvi deixar pra lá. Depois ia beber alguma coisa e pensar no assunto.
No momento em que decidi relaxar e esquecer tudo... aconteceu. E veio em forma de uma grande trombada. Os papéis voaram e espalharam-se por toda a calçada, alguns até caíram no meio da rua.
“Ai, meu caralho...”
“Desculpe, moço! Juro que não vi você!”
“Ah... Eu é que peço desculpas. Esse monte de tralhas não me deixava ver direito...”
“Eu vou ajudar você a recolher essa papelada toda...”
“Não precisa, não, moça. Eu estou acostumado. Não se preocupe comigo. Pode seguir o seu caminho em paz, eu me viro.”
“Tudo bem. Eu não estou com pressa. Pedi demissão ontem.”
A mulher riu. Eu também. Recolhemos os papéis com calma, sem nem nos olharmos. Na verdade, ainda nem nos tínhamos encarado um ao outro de frente. Demorou uns dois ou três minutos, mas parecia uma eternidade. Era como se o tempo tivesse parado no instante da trombada e depois voltasse a correr muito lentamente.
“Está tudo aí? Não faltou nenhuma folha?”
“Acho que sim... Hum... Na verdade está faltando uma. Vamos ver, não pode ter ido muito longe...”
“Isso tem cara de ser coisa importante. O senhor é advogado?”
“É, tem uma grande importância, mas não sou advogado, não. E não precisa me chamar de senhor. Meu nome é João. João Carlos Figueira. Muito prazer.”
“O prazer é todo meu. Eu me chamo Valéria. Valéria Cruz e Silva.”
“Olha lá. Está no meio da rua! Se eu perder este papel, o filho da puta do meu chefe arranca o meu couro. Por favor, você pode segurar estes aqui enquanto eu busco?”
“Claro. Me dá aqui.”
Deixei com a moça toda aquela pilha de papéis embolados. Parecia que a minha pressa havia sumido completamente. Era como se, de repente, tudo estivesse exatamente como devia estar. Nunca tinha tido essa sensação antes.
Com passos tranqüilos e despojados, fui até o meio da avenida e abaixei para pegar a folha de papel. E ela estava molhada. Todas as letras borradas, um pouco de lama e quase rasgando. Estava arruinado, um documento importantíssimo. “Agora não serve nem pra limpar a bunda. Não serve pra nada.” – Pensei.
E fiz uma cara de decepcionado. Mas tinha algo de escárnio, de sarcasmo, em meus lábios. Amassei a dita folha de papel e arremessei-a por cima da rua, dentro de uma enorme caçamba de lixo e entulho. Isso me encheu de satisfação. Foi quando pensei: “Dane-se. Eu já estou de saco cheio deste emprego mesmo...”
O pensamento me deixou mais leve. Como quando o tempo está chuvoso há semanas e de repente abre um belo céu azul, com sol e brisa fresca. Sorri e imaginei-me jogando toda aquela pilha de papéis no lixo. “Melhor ainda” – pensei – “vou queimar tudo!”
Isso aconteceu em menos de um minuto. Mas era como se já houvessem horas decorridas desde que fui buscar a bendita folha no meio da rua.
Sentindo-me até um pouco liberto depois do acontecido, olhei para a jovem, Valéria, com os outros papéis. Ia dizer para ela largar aquela porra toda, um grande sorriso se formou no meu rosto. Quando bati os olhos na mulher, vi que ela tinha uma expressão de pânico.
Depois disso não vi mais nada.
Um carro branco entrou na curva correndo e, não me tendo visto, acertou este pobre homem em cheio. Meu corpo voou como as folhas de papel e caiu esparramado pelo calçamento de paralelepípedos feito uma jaca podre.
Acordei uma semana depois.
Quando abri os olhos, vi-me todo enfaixado e engessado num quarto de hospital. Estava sozinho no lugar.
Desde pequeno, eu tinha um único medo.
Tinha sido um garoto temerário, ousado, não tinha medo de brigas, nem de altura, nem de bichos, nem mesmo de morrer. Os outros meninos do bairro sempre me consideraram meio louco, porque nunca tinha medo de nada. Só que, em meu íntimo, guardava um receio que aterrorizava minhas noites e assombrava meus sonhos. Um medo que me paralisava. Que só se revelava quando eu estava sozinho e deitado com a cabeça no travesseiro.
Admito: João Carlos Figueira sempre teve um pavor irracional de ser vítima do tráfico de órgãos. Parece besteira, né? Juro que não controlo isso. Que posso fazer? Talvez fosse fruto de uma notícia na TV que deixou um pequeno garoto muito impressionado. Talvez fosse uma paranóia sem sentido. Talvez, outra coisa. Sei lá.
O fato é que no momento em que me vi no hospital, sozinho, sem conseguir me mexer... Aquele velho terror atingiu e dominou-me por completo. Logo eu, que fiz questão de colocar na carteira de motorista que não quero ser doador de nada... Enquanto aquela situação me deixava apavorado, tremendo, uma enfermeira gorda e muito feia entrou no quarto.
“Acordou, belo adormecido? Como está se sentindo?”
Ela era gorda, sebenta, feia e tinha uma voz horrível. Mas era simpática e tinha um olhar singelo e carinhoso como de criança.
“O Dr. Jorge vai vir conversar com você. Ele te conhece. Quando bateu os olhos em você, disse: “Caralho, abateram o Coiote sem Fígado!” Foi muita sorte, viu? Era pra você ter morrido. Que pancada! Sorte sua o sujeito que te atropelou ter sido correto e responsável, trazendo você pra cá na mesma hora. Um cara bacana, aquele coroa. O mais incrível é como ele se parece contigo! Pensei até que era seu pai! Sempre liga pra saber de você. Acho que, agora que você acordou, ele deve vir te fazer uma visita.”
“Moça, quanto tempo eu fiquei apagado?”
“Uma semana. Tinha gente aqui no hospital fazendo até aposta. Perdi trinta paus. Achei mesmo que você não ia acordar. Bom, mais tarde eu volto. Beijo!”

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