Prólogo

Foi repentino. Durante o dia, a rotina de sempre. Se quer saber, uma rotina massacrante. Todas são. Mas acho que já estou anestesiado. Não me incomoda tanto quanto antes. Na verdade, já nem a tenho percebido.
O incomum foi a insônia. Não havia motivo algum naquele momento, mas me encontrava numa agitação que me impedia de ir para a cama. Demorei pra conseguir relaxar: só deitei pra dormir por volta das três da manhã. A cabeça pesava mais do que o corpo inteiro e sentia os ombros arqueados, como se carregasse muito peso.
Fechei os olhos e fui lentamente entrando naquele estado semidesperto em que a realidade e o sonho começam a se misturar de maneira que não conseguimos distinguir um do outro. É como quando misturamos azul e amarelo pra virar verde.  Azul e amarelo são, respectivamente, os estados de vigília e de inconsciência. Verde é o estado em que eu me encontrava.
Quando a gente está neste estado, a mente nos prega peças. Ou talvez a própria realidade o faça. Creia no que quiser.
Tive a leve impressão de ter visto alguém se mover diante de mim, de maneira muito rápida. Aquela impressão de sombras correndo pelo canto dos nossos olhos, saca? Pois é.
No momento em que, totalmente por reflexo, voltei meus olhos na direção do movimento, algo muito estranho aconteceu. Não vi coisa alguma. Não ouvi barulho nenhum. Mas senti um impacto no peito, como se alguém me desse um soco bem forte exatamente no meio do peito, sobre o coração. Foi uma pancada tão forte que até rolei da cama e despertei com uma taquicardia desesperada.
Mas não havia nada nem ninguém ali. Apenas eu, sozinho, no escuro, com a respiração acelerada e muita adrenalina nas veias. Minhas mãos tremiam. As luzes que vinham da rua normalmente não transpassam minhas cortinas, mas naquele momento elas pareciam se contorcer para dar a volta nos panos.
Levantei-me devagar, sentei na beirada da cama, pus os pés no chão e levei as mãos ao rosto. A sensação era a de ter recebido um grande golpe e um golpe carregado de muita fúria. Não sentia dor. Só a impressão de ter levado uma pancada.
Minha testa estava muito molhada de suor e eu tremia cada vez mais, mesmo sem estar entendendo o que se passava.
Calcei os chinelos e fui lentamente até a cozinha. Bebi três copos bem cheios de água, enchi um quarto copo e fui até a sala. Lá não há cortinas, portanto estava um ambiente penumbral, fruto da iluminação da rua que invadia minhas janelas e dava um tom avermelhado nas paredes brancas. Estava um silêncio bastante confortável. Como se tudo estivesse congelado no tempo, imóvel. Minha respiração, que já ia desacelerando, era tudo o que podia ouvir.
Não acendi a luz. Sentei no pequeno sofá branco, coloquei o copo d´água sobre a mesinha ao lado e encostei, colocando a cabeça para trás até tocar a parede. Sentia um pouco de medo e muita confusão.
Foi quando pensei comigo: “O que eu fiz da minha vida?”
Era uma sensação estranha. Sempre tinha sido tão certo do que queria ou devia fazer. Sempre com tanta certeza do caminho a seguir. Os resultados disso me pareciam necessariamente os que deveriam ser. De repente, a esta altura do campeonato, me bateu esta dúvida e ela me deixou instigado.
Pensei: “Será que o que eu fiz realmente valeu à pena?”
Pode parecer coisa de um velho babão, mas eu precisava saber. Não sabia se isso ia mudar alguma coisa, mas senti que era fundamental saber se valeu. Talvez tenha sido a primeira vez em que tive um medo real da morte. Passei a vida toda zombando dela, mas não dá pra fugir. Nesse momento, tive a sensação de ter o seu bafo no meu cangote e, admito, me aterrorizou.
Mas não temia morrer. Nunca temi e a idade aumentou este sentimento. Temia ter vivido em vão. Por isso, precisava saber. De qualquer jeito.
Olhando pra mim naquele momento, eu não era grande coisa.
Imagine só: um velho todo ferrado, sozinho, com pouco dinheiro, meio desleixado e morando num bairro ruim da cidade.
Não precisa ter pena. Na verdade, dispenso completamente. Apenas convenhamos: não era grande coisa. Mas já fui jovem.
Pode rir. Essa frase ainda me provoca risos também. É que isso é coisa de gente velha. Quando a gente começa a falar mais do passado do que do futuro, é sinal de que estamos velhos.
De qualquer forma, neste momento, o passado parecia ser a chave para o futuro. Por isso, precisava saber o que tinha feito dos meus anos sobre esta terra.
Decidi escrever. Faria um relato de tudo o que pudesse me recordar sobre minha própria vida, da mais antiga lembrança de infância até o dia fatídico em que fantasmas da consciência revolveram as profundezas do lago da memória e me fizeram mergulhar em suas águas.
Lembrei de uma alcunha que me acompanhou por muitos anos. Dada por amigos de adolescência, numa das intermináveis noites de bebedeiras. Um apelido que, em diversos momentos de minha existência, reapareceu anunciando grandes mudanças. Pensando agora, é mesmo incrível. Depois de algum tempo, a vida correndo, este apelido era sempre esquecido. Num dado momento, aparecia sempre alguém disposto a se lembrar dele e trazê-lo de volta. E sempre seguindo estes fatos vinha uma grande reviravolta e minha vida se transformava completamente. Não posso dizer que era isso o que causava a mudança, mas me impressiona como este padrão sempre se repetiu de diversas formas em vários contextos e tempos diferentes.
Assim surgiram as CRÔNICAS DE UM COIOTE SEM FÍGADO.

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